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Os selfies e as verdades
da mamãe

 

Minha mãe era uma dama. Ainda é, aliás. Não me lembro dela jamais perder a pose, não me lembro de grandes exibições de sentimentos. Era severa a minha mãe…e impecável!

Como talvez muitas mulheres da sua geração, ela não parecia de fato ter algo que se pudesse chamar de intimidade. Só o que contava era a aparência. Na verdade, cresci achando que o mundo era povoado por uma raça invisível de seres, chamados outros, que sempre viam e ouviam tudo (de errado) que fazíamos! O que eles poderiam pensar era pergunta irrespondível, seguida por muitas ansiosas interrogações…de fato, o que os outros pensariam?

Visto do lado de hoje, fico imaginando tantas coisas que não sei sobre minha mãe, tão bem escondidas ficavam debaixo da cabeça erguida, do porte ereto…

Não somos como nossos pais, feito na música, mas acabamos nos tornando o avesso deles. E o Facebook está aí para acolher os selfies de todos, filhos…e mães! Tudo se compartilha, tudo se curte…mas, será que é mesmo por aí que se constrói a intimidade que nossos pais provavelmente desejavam tanto quanto nós e com a qual não podiam sequer sonhar?

Será que nossos filhos, sobretudo nossas filhas, adoram saber tudo sobre nós, suas mães? Será que esse tudo de Facebook é o suficiente para alimentar relações profundas entre as mães e suas filhas? Fiquei me perguntando…

A rigor, a resposta para o que uma filha gostaria de saber da vida de sua mãe deveria ser simplesmente: a verdade.

Mas…a verdade? Tem certeza?

Menstruações, orgasmos e outras verdades ginecológicas? “Mãaaaaaeeee!!!!!” Preparativos para seu exame de colonoscopia? “Muita informação, né mãe?” Que você achou um gato o amigo dela na festa de ontem? “Pelo amor, mãe….” Como foi o beijo de ontem à noite? “Creeeedo!!” Se o seu pai era ou não bom na cama? Nem sob tortura!

Sempre achei minhas filhas mais pudicas do que eu jamais fui. Mas estava enganada. Não é pudor, é distância saudável de mim. De que outro modo, a não ser se afastando, as filhas podem se desmisturar de suas mães?

OK, confidências desse tipo, nunca…então, o que?

Nossas filhas merecem ouvir nossas verdades, conhecer nosso contexto. Saber que elas, assim como nós e nossas mães antes de nós pertencemos a tempos diferentes e demos soluções diferentes para nossas vidas.

Dá para contar essas histórias, admitir nossas dificuldades, falar de nossos sonhos, realizados ou não, sem ferir a pele sensível dessas mulheres tão jovens com confidências que a gente deve reservar apenas para nossas melhores amigas. Sobretudo, dá para falar de sentimentos e de perplexidades, das raivas e das frustrações sem transformá-los em ‘verdades universais’.

Sim, que medo dessas verdades que parecem extraídas de bulas de remédio! Vamos também poupar nossas filhas delas. “Nenhum homem presta!”, “Mulher não tem cabeça para números” (para finanças, para ciências…as variações são infindáveis!) “Você vai sair ASSIM?”

Você reconhece essas falas porque elas em geral começam negando o direito de nossas filhas serem diferentes de nós.

Terem verdades diferentes. Destinos outros. Outros recursos para lidar com os problemas e as dificuldades.

“Eu quero me manter magra e isso sou apenas eu…não é um destino compartilhado”, diremos. “Eu só entendo a vida se estiver com um homem do meu lado e isso também sou só eu, não é uma lei”. “Eu tenho dificuldade em assumir minha independência e autonomia e isso sou apenas eu, não é condição feminina”.

A gente não ama mais nossas filhas se despejarmos sobre elas as nossas “verdades”. Ao contrário, muitas vezes essa “intimidade de Facebook” vem acompanhada de ressentimentos e de uma sensação incômoda de inadequação…beber na juventude delas coisas que julgamos perdidas em nós mesmas!

“Uma relação humana honesta, na qual cada uma das partes tem o direito de usar a palavra ‘amor’, é um processo, delicado, violento, às vezes aterrorizante para ambos os envolvidos, um processo de redefinir as verdades que cada um pode contar para o outro”, leio no livro lindo de Elizabeth Debold, Mother Daughter Revolution.

A verdade não tem nada de trivial, pasmem, senhoras! Nem a verdade nem o amor. São construções humanas, ousadias…coisas complicadas de viver que não cabem nos selfies alegrinhos do Facebook.

O que as filhas não querem nem precisam saber sobre suas mães? Provavelmente todas aquelas ‘verdades’ que não nascem dos nossos sentimentos verdadeiros. E talvez a melhor forma de contar a verdade para nossas filhas é começar pela frase: “Comigo aconteceu assim… ” E construir o resto da história junto com ela…

Originalmente publicado no blog de Adília Belotti, Viver mais 50, Corega/MSN

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