Que belas somos, senhoras! Fifties mais/GettyImages

Que belas somos, senhoras!

A exaltação das mulheres dos anos 1960 aos 1980 pelo escritor Santiago Gamboa.

Sei que ele existe. Santiago Gamboa, escritor colombiano, autor de vários livros, incluindo A Síndrome de Ulisses, traduzido para o português e de Perder es cuestión de método, que virou filme de Sergio Cabrera. Li artigos dele no Babelia, suplemento literário do jornal espanhol El Pais e sei que publicou um último livro, Hotel Pekin, em 2008. Vi sua foto no site da editora e compartilhei de inúmeros elogios à sua narrativa, ágil, cinematográfica…

Mas não sei se é dele o texto que me chega no Outlook, As mulheres de minha geração, de tanto que já foi copiado e colado nas telas da web. Impossível chegar naquela primeira página, aquela que nos permitiria dizer com absoluta certeza das intenções do autor. Uma pena!

Essa questão complicada de falta de créditos, no entanto, não invalida o fato de que das coisas tantas que caem nos nossos Outlooks, esse artigo, feito num Dia Internacional das Mulheres, é um dos meus favoritos! E todo vez que leio, é como se me vestisse dessa mulher recontada, de contextos um pouquinho hispânicos demais, mas na qual, ainda assim, me reconheço… e me sinto, de novo, bela!

Por isso, lá vão as boas razões porque o escritor (algum, ao menos) nos acha tão belas!

É o único tema em que sou radical e intolerante, no qual não escuto argumentações: as mulheres da minha geração são as melhores e ponto.

Hoje têm quarenta e picos, inclusive cinquenta, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto,  apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que capitoneam suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Formosamente reais.

Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciados e recasadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento. Que importa?

Outras, ainda que poucas, mantém um pertinaz celibatarismo e o protegem como a uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre suas portas a algum visitante.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração! Nascidas sob a era de Aquário, com a influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes feministas, que entretanto receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.

Jamais viram no homem um inimigo, apesar de que lhe cantaram umas quantas verdades, pois compreenderam que se emancipar era algo mais que colocar o homem para esfregar o banheiro ou trocar o rolo de papel higiênico, quando este tragicamente se acaba, e decidiram pactuar para viver em dupla, essa forma de convivência que tanto se critica, porém, que com o tempo, resulta ser a única possível, ou a melhor, ao menos neste mundo e nesta vida.

São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam.

Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El raton, de Cheo Feliciano, na Teja Corrida ou em Quebracanto, com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdjieff e do cinema de Bergman.

No fundo de suas mochilas havia pacotes de Pielroja, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, e que se chama Teu amor é um jornal de ontem.

Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos pernilongos, porque adoravam a liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora madureza.

Souberam ser, apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano.

O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante por dentro.

A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos façam sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia do Santana.

Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

A tradução é atribuída ao jornalista Luiz Augusto Michelazzo. Quem consegue comprovar?
Existe um arquivo em pdf com o que parece ser o texto original de Las mujeres de mi generación, arquivado pelo Ceme, um centro de documentação chileno, sob a rubrica “movimentos femininos”. Vai saber…

Um comentário

  1. Realmente, fui eu quem traduzi o texto atribuído ao Gamboa. Também não posso comprovar se foi ele que o escreveu, ou não. Mandaram-no em espanhol. De qualquer modo achei-o um hino de amor às mulheres da minha geração — das quais me apaixonei perdidamente por duas — e às das outras gerações, também. Traduzi-o e mandei a uma amiga e, vejam só, correu o mundo.

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