Feliz ano-novo! Adília Belotti/FiftiesMais

Feliz Ano-Novo!

Vou viajar no dia 31. Quando for meia-noite aqui, devo estar em algum lugar no céu, voando na contramão do ano-novo em direção a um ano um tantinho já mais velho! De certa forma, vai ser como viajar para… trás, certo? Ou será, ao contrário, um fast forward para o futuro?

Sei que é puro exercício de imaginação, mas para quem anda, como eu, mergulhada no tema do envelhecimento, não deixa de ser curioso terminar o ano com essa sensação quase física de que o tempo brinca conosco.  Ou será que somos nós que brincamos com o tempo?

No dia de Natal, já bem depois da sobremesa, naquela hora preguiçosa que acompanha as comilanças e convida a conversas compridas, uma mulher muito jovem me dizia: “prá que ter consciência da finitude de todas as coisas? É melancólico…”. Verdade, mas só em parte.

Somos criaturas fascinantes justamente porque temos essa aguda consciência da passagem do tempo. Sabemos que um dia nascemos, sabemos que um dia vamos morrer. Nossa experiência nos ensina que vivemos imersos no tempo. Jogamos nele nossos planos, nossos sonhos, nossos projetos. Deixamos que ele defina a hora do primeiro beijo, de formar uma família, de recolher os flaps e começar a envelhecer. O tempo nos define e nos ilude. Achamos que temos muito ou pouco ou nenhum tempo e, no entanto, temos sempre e somente esse instante. Todo o resto é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida de discipliná-lo em segundos, minutos, horas, calendários, agendas, rituais.

Nossa aflição com o tempo nos faz desconfiar dos instantes, então preferimos dizer que em 2014, teremos 525.600 minutos para viver (lembra da música do Rent?) e que, se tudo der certo, quando morrermos teremos vivido muitos milhões de minutos mais. 

E até essa sensação de que existe um momento em que o tempo é novo, por exemplo, é real, é sonho? O que torna o ano-novo…novo?

Leio em uma reportagem do NYTimes que Gertrude Stein, falando sobre sua contemporaneidade, dizia: “a única coisa que é diferente de um tempo para outro é aquilo que está sendo visto e aquilo que é visto em determinado momento depende da forma como as pessoas estão fazendo suas coisas”, ou seja, das escolhas e decisões que estão tomando…agora!

Parece simples. E talvez seja mesmo. O que é novo no ano-novo não é o tempo, somos nós…

E somos nós no presente, nesse já, entre amanhã e ontem, entre aquilo que foi e o que ainda não aconteceu.

Para construir sua fábula sobre a subversão do tempo, Meia-noite em Paris, Woody Allen teria ido buscar inspiração em um dos livros mais conhecidos de Gertrude Stein, A Autobiografia de Alice B. Toklas. No filme, um jovem americano aspirante a escritor, aprisionado numa paralisante nostalgia da Paris dos anos 20, brinca de ir e voltar no tempo até receber da própria Gertrude Stein, interpretada por Kathy Bates, o conselho de voltar para o presente e apostar em si mesmo como escritor. A grande dama da literatura, considerada o máximo da ‘avantgarde’, sabia do que estava falando…

Esse tempo é o nosso tempo. E é só um instante.

A vantagem é que, assim como conclui o Gil Pender de Meia-noite em Paris, ‘estar no nosso tempo’, nos torna no mínimo co-autores do milagre da mudança, dos sonhos realizados, das metas batidas, da esperança de um ‘tempo melhor’.

Quer dizer, vamos pular ondas, acender velas para Yiemanjá, comer lentilhas, vestir amarelo, mas no dia primeiro, é arregaçar as mangas e fazer esse tal ‘novo’ acontecer…em nós! Porque a responsabilidade por cada um dos 525.600 minutos que vivermos em 2016 é toda…nossa!.

Obrigada, amigos queridos do Fifties e até o ano que vem!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *