Revelação, por Vera Tarantino

Enquanto se vestia para sair, ajeitou os cabelos tintos no espelho e inesperadamente se deparou com a figura da mãe, justo ela que sempre fora a cara do pai. Não, não se tratava de uma visão, apenas uma semelhança gestual, um olhar, um jeito com a boca, os cabelos agora curtos, substituíam os longos de uma vida toda, e lhe emprestavam uma jovialidade hoje desaparecida. Essa composição de movimentos que a trazia vivamente de volta, a fez suspirar. Se deixou levar por aquelas lembranças da mãe desaparecida há tantos anos, e que de repente a invadiu com a força das coisas vivas, a ponto de sentir o cheiro que lhe era característico – Fleur de Rocaille, seu perfume predileto.

Lembrou do vestido preto e vermelho de seda, o único que restara e do qual se separara havia pouco, pelas mãos da própria filha que lhe roubara do armário.

Ainda intrigada com o que o espelho lhe revelara, ajeitou os cabelos novamente, desta feita vaidosa de encontrar em si fragmentos daquela mãe que ficou lá atrás, nos seus trinta e três anos, e que no entanto envelhecia com ela.

Passou batom, vestiu o casaco, pegou a bolsa, deu uma última mirada de lado, já escapando, e saiu altiva com aquele riso de canto de boca, tomada de uma alegria vinda lá de cima.

 

Vera Tarantino: “Sou uma pessoa em movimento. A escrita me acalma, me faz parar. Minha relação com a palavra sempre foi da precisão dos dicionários, no entanto foi da imprecisão das minhas memórias que meu texto nasceu.”

 

8 comments

  1. Vera gostei muito do seu texto. Delicado com um toque sutil de lembranças saudosas e agradáveis. Tudo reforçado pelo cheiro de Fleur de Rocaille, provocando no leitor uma certa tristeza pelo personagem não ter mais o vestido preto e vermelho de seda.
    Léo

  2. Memórias! Capturando um segundo, cheio de temporalidades. E o olfato comparece! Lembrei de uma passagem de Clarice, bem a calhar, que colo em seguida! Embora aqui o desfecho seja mais feliz que ali!

    “Foi beber devagar o copo d’água no terraço. Sentiu pelo cheiro do ar e pela inquietação dos ramos das arvores que ia chover dali a pouco. Não se via a lua. O ar estava abafado, o cheiro de jasmim vinha forte do jasmineiro da vizinha. Lori ficou de pé no terraço, um pouco sufocada pelo perfume intenso. Através da embriagues do jasmim, por um instante uma revelação lhe veio, sob a forma de um sentimento – e, no instante seguinte ela esquecera o que soubera através da revelação. Era como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminada pelo intolerável saber”.

    Vera viu e não esqueceu!

    1. Benvinda Vera,

      Um texto de realidade passada, quando ao passar pelo espelho vemos nossa mãe e não mais nós
      como somos no momento. Os tempos são diferentes mas nos vemos iguais. Assusta a gente porque acredito ver nela a nossa finitude.
      Gostei muito do seu texto. Lindo lindo e singelo.
      Obrigada!
      bj
      Bettina

  3. A escrita, como o espelho, revela a face do autor.
    Aí está a Vera, contadora de histórias feitas de memórias ricas de sensações e sentidos. Texto refinado, palavras sempre na medida.

  4. Vera,
    Nossos pais vão aparecendo debaixo de nossas peles na medida em que o tempo passa. Aparições alegres e surpreendentes algumas, outras assustadoras. Não temos controle sobre nossa memória. Ela só mostra o que lhe der na telha. O encontro que você relata é o que dá vontade que aconteça pra gente.

  5. A escrita, feito o espelho, revela a face do autor. Ai , está a Vera, na posse da narrativa feita de memórias ricas de sensações e sentidos. Escrita refinada , palavras na medida.

  6. Não sei porque pensei em matéria e antimatéria. Talvez porque quando se encontram se aniquilam e se fundem em algo semelhante à luz. Aí não há mais espaço ou tempo. Olharmo-nos e perceber outros que carregamos, como herança biológica ou continuidade espaço-temporal, é o instante da extinção de nós mesmos e a iluminação de que somos resultado de convergências temporais inescrutáveis; exceto por um caminho, também estranho e maravilhoso, o texto ficcional.
    Pequeno texto de grandes dimensões que me traduziu profundamente a condição de ser. Parabéns.

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