Um conto de Páscoa

 Pequeno Tratado Sobre As Aspas – Os Sapatos Do Pai!

1.

No passado longínquo, ainda jovem, subitamente, transformou-se noutra pessoa. Tornou-se “não ele”. Colocou-se a trabalhar numa firma, ficou “sério”. Gravata. Paletó. Mudou de voz – a ela acrescentou camadas graves. Alterou o tom, impostou-se. Despediu-se da “infância”.

Resultado duvidoso! Não ser “si mesmo”, a fórceps, deveria ser proibido por lei.

Ele não sentia vergonha ou crítica. Ser, por decreto, este “outro-que-não-ele-mesmo” era-lhe “natural”. Ou fingia que achava natural. Sem censura. Soava como um mau ator no palco. Procedia a uma performance permanente. Irreversível.

Cenas compulsórias. A contragosto, éramos obrigados a assistir. Estupefatos. Nem te conto.

Parecia ter saltado com os dois pés e aterrissado direto nos sapatos do pai, cujas pegadas seguia de perto.

Ao pai, claro, caía bem aquele conjunto de gestos. Era… – como se diz? – “genuíno”! Indumentárias! Nuns, fica bem; noutros, nem tanto assim!

No caso do filho, a assunção daquele personagem, saído de uma estória da Carochinha, assim do nada e ao acaso, sem mais nem menos, foi homicídio brutal: aborto do “eu verdadeiro”. Entre aspas!

Não há “verdade”, nem “eu verdadeiro”, evidente!

Porém, há falso-eu, isso sim – sem aspas!

A contradição é só aparente.

2.

Disse uma sábia da Hungria: quando uma criancinha calça os sapatos do pai, e sai andando cambaleante pela sala, a gente acha graça e ri e se diverte. Bate palma! Grita de prazer!

Depois de certa idade, não dá. Um adulto que enfia nos pés sapatos outros que não os seus, pretendendo ser alguém que não é – alguém admirado ou temido, tanto faz -, condena-se a uma estereotipia bastante artificial. Patologia? Talvez.

Seria um jeito de manter o pai vivo? Muito psicanalítico!

Se é por isso, ou por aquilo, não sei. Porém, o que importa é a sensação que provocava nos demais. Desconforto. Constrangimento. Choque.

Saudades do “eu” anterior. Por amor, deveríamos rejeitar qualquer filial de matriz. Fidelidade mínima!

Era como se, de repente, ele tivesse decido fazer de conta que era “adulto”. Essa era a impressão. E parecia também que virilidade só era possível daquele jeito. Mas isto nem vem ao caso.

3.

Bom senso nunca fez mal a ninguém. Ponderações:

“Adulto” é palavra infeliz. Nunca deveria ser usada.

Bem a propósito, outro sábio, vindo da Itália, especialmente para esclarecer este ponto, diz: a única saída para uma definição decente de “ser adulto” (nomenclatura ingrata) é ligar a expressão ao termo “generosidade”.

Boa! Que bom que haja sábios!

Aliás, nenhum adulto se declara adulto. Se o fizer, adulto não é!

Com sexualidades também é assim…

Se disser “aquilo”, “aquilo” não é. É “isso”!

Paradoxos…

4.

Note-se: há muitas aspas nas frases acima. Explico. Tudo a ver com o assunto. Veja bem.

Somos plurais! Crescer é ir se deixando ser múltiplo. Permitindo que “muitos” façam a possessão dos nossos corpos, almas e bocas – cada um desses “muitos” sempre entre aspas, por favor. Muitos “outros” em cada um de nós.

Todavia, eis a função sublime das aspas, não se deve acreditar piamente nos sons – nem isolar nenhuma voz, das muitas que passam cantando e sussurrando melodias. Ouvidos moucos! Amarremo-nos aos mastros!

Ter filhos, por exemplo. É consentir em ser “responsável”, entre aspas também (obviamente). Responsável, dentro do possível. Senão, o peso seria inconcebível. Um terror.

Os pais teriam de se imolar em praça pública várias vezes ao dia. A cada pecado cometido. A cada descaminho. Cada coisa que não dá certo. Que não sai como o planejado. Que foge ao controle.

Quem não põe aspas sofre. Sofre mais.

No limite, tirar as aspas – e viver sem elas – atravanca tudo. Qualquer papel: social, amoroso, familiar, profissional, lúdico… Sem saída!

Saint-Exupéry deveria ter dito (escrito) assim:

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas entre aspas.

Bem a calhar, psicanálise é essa ciência que leva a pessoa a colocar aspas ali onde elas faltam… Parece simples, mas leva no mínimo dez anos…

5.

A tal ponto que pode-se hoje afirmar com toda a convicção:

A diferença entre humanos e outros animais são as aspas.

Somente humanos aderem às aspas…

Tal qual a conquista do fogo.

Grandes evoluções, grandes saltos.

Os bichos não as usam. Não sabem sequer da existência delas.

Senão, vejamos.

Vacas pastam capim sem aspas.

Abelhas polinizam sem aspas.

Já enólogos tomam vinho com aspas.

Sexo é a atividade mais com aspas que existe. Entre humanos.

Ou um leão, ao copular, acha que a leoa é quem? Ou ele fuma depois do coito?

Bichos levam tudo ao pé da letra. Humanos, não.

Tanto assim que o amante humano diz: “você é uma leoa na cama”. Tudo muito bem.

Quando é que um leão diria pra leoa: “você é uma mulher na savana”?

Metáforas! Na selva, não as há! Na cidade, sim as há!

Observação: Nem sempre foi assim. Houve um tempo, anterior às aspas, em que as pessoas andavam sem elas. Descalças.

Adão e Eva eram sem aspas.

Etc.

6.

Enfim, pobrezinho, volto ao rapaz, hoje homem. Hoje velho. Aquele que – em tempos idos – pulou dentro dos borzeguins do pai. E ali estacionou. Petrificado.

“Tão-filho” ele é! Ainda e para sempre. Constatei. Dor!

A sua melhor verdade, a porção maravilhosa de sua pessoa, suas coisinhas sagradas… Ficaram todas elas soterradas por entulho. Gestos e cacoetes sem aspas. Capturado pelo eco da voz paterna!

Levou-a demais a sério…

Entretanto.

Na páscoa, ele há de libertar-se.

Dar-lhe-ei aspas num ovo.

E elas curá-lo-ão. Hão de curá-lo.

Dos escombros, resgatado. Tornado de novo menino.

Ponha um chinelo! Direi a ele, com carinho.

Fé.

PS- nós todos por aqui nos reservamos o direito de não entrar no mérito de decidir se a ressurreição do filho do deus foi com aspas ou sem…

PS2 – nada diremos tampouco sobre aquele outro evento bíblico, bem mais antigo. Teria o mar se aberto em aspas?

PS3 – Aspa: “antigo instrumento de suplício composto por dois pedaços de madeira cruzados em X; cruz de Santo André”, Houaiss.

 

Texto por: Sergio Zlotnic

Sergio Zlotnic – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

 

Ilustração por: Enk Te Winkel

ENK TE WINKEL nasceu no Rio de Janeiro em 1987. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo na FAU Mackenzie em 2012 com o trabalho “Arquitetura por Subtração”, vencedor do 24º Ópera Prima e exibido na X Bienal de Arquitetura de São Paulo. Atualmente é professor assistente da disciplina de Projeto na Escola da Cidade e é sócio do escritório de arquitetura Vão, junto com os arquitetos Anna Juni e Gustavo Delonero. Entre os reconhecimentos que o escritório tem obtido, destacam-se o 2º lugar no “Concurso Nacional Anexo BNDES” no Rio de Janeiro, em 2014, e o 1º lugar no “Concurso Internacional Geometrías Invisibles” na Cidade de México, em 2015, organizado por LIGA, espacio para arquitectura. Entre outros projetos, o Vão dialoga com as artes plásticas, através de colaborações regulares com artistas contemporâneos. http://vao.arq.br/index.html

 

12 comentários

  1. Sérgio, mestre da concisão e da linguagem certeira. Vai levando como quem contasse uma história qualquer e aquilo que parecia tão familiar , assim, como sem querer, me joga na vertigem do tempo. Fico na gangorra da suspensão , à escuta deste narrador próximo e distante, que põe no colo e depois expulsa.Acolhe e alerta .
    Nem te conto!

  2. Sergio,
    “que beleza de texto”””””””””
    “”””””””””
    “””””””””””
    O que ecoa é a amplidão.
    Bem que nesta Páscoa todos os ovos poderiam vir recheados de aspas, afinal há sempre um ou outro caminho obstruído por pedras absolutas.

  3. obrigado, Regina! ótima oposição que vc faz entre aspas e pedras absolutas! caminhos desobstruídos pra nós! na Páscoa – e fora dela!
    [amplidão! que coisa boa!].

  4. Zzzzlot,
    Aqui preciso fazer um comentário inteligente, diferente dos que trocamos, tão sem compromisso…
    – Não posso dizer que adorei seu texto porque tem uma pegada psicanalítica incrível, um talento precioso de olhar e contar o que viu de modo lúdico, leve e certeiro.
    – Não posso dizer que adorei seu texto porque ele tem uma pegada de compaixão que toca o coração do leitor. Nos vemos todos nesse pobre infeliz que enfiou os coturnos do pais, uma filial da matriz.
    – Não posso dizer que a descoberta das aspas foi o grande passo da humanidade, e quem me avisou disso foi você.
    – Não posso dizer tanta coisa, pois me esparramaria linha por linha, até o final do conto, de modo muito diferente do que você construiu no seu pequeno/ grande texto: uma visão de mundo piedosa, ao mesmo tempo irônica, bem à moda do velho Freud, cheia de witz.
    – E concisa
    – E poética
    – E inesperada

  5. Genial. Lendo me deu aquela vontade-revolta-inveja, tudo sem aspas de tão nu, “como nunca pensei isso?” Enfim, também quero ovo de páscoa cheio de aspas e dispensar as aspas dos mistérios da ressureição. Comer chocolate enquanto ressucito seria bem bom. “Feliz Páscoa” – com maíscula e com aspas, como convém a tudo que é amplo demais.

  6. “Você leu o zzzlot no Fifties?”
    “Anda não. E aí? Gostou?”
    “É metalinguístico, histórico, teológico, psicanalítico…”
    “Não é chato?”
    “Aí é que está! Também é humorado, emocionante, cativante, inteligente e perturbador. Uma das melhores experiências de linguagem, forma e conteúdo que li nos últimos tempos. É encantador.”
    “Uau! Vou ler agora mesmo.”
    “Peraií. É texto para ocasião, mas não é texto de ocasião. Pode ler devagar, degustando. Vai ressoar em você além da Páscoa.”

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