Entre pautas e pastas

– Você não pode continuar escrevendo em cadernos – o editor me falou com cara desanimada.  É inviável ler seus textos, comentá-los e corrigi-los.

Parou, respirou e desfechou o golpe baixo:

– Além do mais, sua letra me deixa tonto.

– Eu não posso continuar escrevendo em cadernos, – repeti a frase para toda a família na hora do jantar. Olharam-me com cara de: óbvio, né, mãe!

Meus cadernos eram famosos. Espalhavam-se por toda a casa. Habitavam estantes, armários, invadiam as gavetas, jaziam esquecidos em caixas de papelão, maleiros e sótãos. Diários, cadernos de poesia, redações escolares, projetos de livros, rascunhos de cartas. Dentro deles, minha vida. As coisas que eu vi, as pessoas que me viram, o vivido, o imaginado, o silenciado. As palavras todas – novas, velhas, gastas, indomadas, sagradas. As palavras que eu acolhi, que me encontraram, que nomearam meus espantos e graças. As palavras que grudaram em mim e me traduzem.

Tinha que admitir que estava ficando impossível não só encontrar os cadernos, como encontrar o que eu queria dentro deles. Às vezes ia à procura de um determinado poema, voltava com textos de viagem ou cartas de despedida. Comecei a aceitar que nunca recuperaria o que escrevi. Meus cadernos eram minha versão doméstica de labirinto.

Precisavam ter capa dura, serem espirais e pautados. Quando completos ficavam ondulados, marcados pelo relevo da minha letra que pisava as páginas com força e fome, imprimindo passos de tinta ou grafite, calcando o mapa dos pensamentos, sinalizando devaneios, esculpindo lembranças.

Lá estava o caminho da minha escrita. Mamãe é bonita. Escola Ruy Barbosa, 4 de abril de 1959. Minhas férias na fazenda. Eu tenho uma amiga chamada Lili,/ que pula que brinca, como eu nunca vi,/ se eu parto ela chora,/ se eu fico, ela ri/ assim é minha amiga, chamada Lili. Primeiro verso aos 9 anos. Plic, ploc, plic, ploc, bate a chuva na janela me chamando para ver a rua molhada e imaginar a lua. A redação que o poeta leu e me chamou de poeta. Querido diário, fiquei menstruada. Listas de lugares para conhecer, listas de garotos que eu queria beijar, listas de palavras que não conhecia. Mãe, o que é priapismo? Cadernos de sonhos, de orações, de receitas, dos nomes que daria aos meus filhos.

Meus cadernos viraram cadernetas, folhas soltas esquecidas dentro de livros, em meio a documentos, nos álbuns de fotografia. Viraram bilhetes, cartas, milhares de cartas. Amores em carta. Por morar sempre longe e viver de mudança escrevi muitas cartas. Escrevi eu te amo, centenas de vezes, em papéis perfumados, folhas de almaço, guardanapos, maços de cigarro, ingressos de teatro. Eu te amo, amo você, eu te amo demais, eu te amo para sempre. Está tudo registrado. Meus cadernos são atas.

Quando as sombras vieram, e a loucura e a morte brincavam na sala da minha casa, meus cadernos me escondiam, escudos poderosos, abrigos mágicos, recolhiam as palavras indizíveis, resguardavam nos seus vãos os restos da minha inocência, ecoavam sanidade me lembrando acalantos. Quando os dias eram de chumbo, meus cadernos eram boias de salvação. Quando eram dias de saudade, meus cadernos eram mapas que apontavam os lugares intocados onde minha alma se abrigava e reconhecia. Quando dias de afastamentos e distâncias geográficas, meus cadernos asseguravam que minha terra, minha pátria e a casa dos meus avós iam comigo onde quer que eu fosse, e me faziam lembrar a dança dos coqueiros, mesmo que nevasse lá fora.

Tentei juntá-los. Impossível. Eles não eram catalogáveis, mesmo sendo acervo. Não eram tijolos, mesmo sendo alicerce. Eram coisa solta, palavras ao vento, pegadas na areia. Eu os teria enquanto tivesse memória. Sim, naquele instante compreendi: eram inacessíveis, cifrados, precisavam das minhas senhas para adentrá-los.

– Você não pode mais escrever em cadernos, – ele me disse, e me deu de presente meu primeiro computador com um lindo cartão, que foi parar em algum caderno: “Navegar é preciso.”

Odiei o tal computador, odiei o presente. Por muito tempo nos medimos, nos estranhamos, nos rejeitamos. Ele era um monstrengo imenso sobre minha escrivaninha. Parecia o Darth Vader  a me dizer: Que a Força esteja  com você ! O tal do PC me olhava esfíngico: você não vai me decifrar e eu te devorarei, fácil, fácil. Novo documento de Word. E o cheiro de caderno novo? E a maciez da página virgem, a escolha da caneta, do lugar onde escrever? Aprender a salvar, a colar, a copiar, a recortar, a enviar, a deletar. Escolher fonte, determinar espaçamentos, margens, fazer layouts. Tudo novo, novo vocabulário, nova escritura. Que preguiça para o novo. Um dia arrisquei um texto sobre a Saudade do Futuro. A máquina do demo deu sumiço no meu texto. Chorei de raiva. Meus cadernos nunca me fizeram tamanho desaforo.

Aos poucos fui me conformando, aceitando a cangalha.

Não sei precisar que hora aconteceu. Uma espécie de tragédia, de praga bíblica: não sei mais escrever em cadernos. Preciso de uma tela, um teclado, uma pasta onde salvar meus escritos. Minha letra está ficando feia. Gasto minha letra assinando cheques, fazendo listas de compras, deixando bilhetes em post-its. Minha memória está organizada extra corporis, sujeita a vírus e hackers. De uma forma assustadora: o passado acabou. Está todo lá, ao meu alcance, na rede.

Há quase vinte anos não escrevo à mão.

Meu primeiro livro, todo escrito em cadernos, foi transferido para o computador numa transfusão melancólica, inexorável. Cuidei pessoalmente desse trâmite, trânsito, transpor de eras. Vi minha letra virar fonte Times New Roman 14.

Hoje, salvo tudo que escrevo. A salvo estão as palavras, as crônicas, os personagens, os silêncios. São arquivos técnicos. Nem mortos, nem vivos. Nos meus cadernos, ao contrário, está tudo à mercê das traças, do fogo, do acaso, mas tudo salvaguardado, num limbo placentário, primordial. Tudo acontecendo na memória, na imobilidade da infância, nas certezas da juventude, na aventura espantosa de tantos primeiros, das descobertas fundantes e das experiências inaugurais.  Nos meus cadernos, a vida é obra inacabada.

Não imagino minhas filhas abrindo minhas pastas e arquivos no computador, depois que eu morrer, mas posso vê-las folheando meus cadernos, tocando o relevo da minha escrita, a impressão das minhas palavras, a ondulação do meu pensamento premido nas páginas que guardarão meu cheiro, manchas de lágrimas, vinho e alimentos, rasuras de arrependimentos e as milhares de reticências que anunciavam palavras por vir.

 

Nasci Maria Hilda Kruschewsky Lucas, em Ilhéus, Bahia, em 1954.
Tempo, espaço e genética.
Essa é minha espinha dorsal, o resto são minhas circunstâncias.
Advogada, mãe,escritora.
Mudei muitas vezes, sou muitos lugares, sou muitas.
A escrita é a casa dentro de mim.

3 comentários

  1. carissima Hilda,

    seu texto é comovente como são nossos cadernos , hoje escritos em memória de…
    de… tudo que v. descreveu com tanta precisão e realidade. Nao saberia dizer tao lindamente
    o sentido que v. dá a eles apesar de tê-lo vivido parecidamente. Ainda os folheio não mais atras dos
    textos transformados em pastas ( `a epoca em cd’s depois em pen drive datadas , tudo guardado em uma caixinha que sempre faz barulho quando abro a gaveta). Vou atrás das capas guardadas na biblioteca, da letra cursiva e do cheiro que emana dos lugares onde me sentei para escrever. Lindo lindo, obrigada! beijo

    1. Bettina, tenho certeza que você, como eu, tem muitos cadernos guardados, cuidados e perdidos pelas casa e lugares que você habitou. Somos uma geração que sentiu essa passagem na carne. Acho comovente essa nossa passagem. Obrigada pela cumplicidade do seu olhar

  2. Hilda, eu já tinha lido o seu texto, a Aurea foi a portadora. Acabei de reler, e felizmente tinha me esquecido de muitos detalhes. Digo felizmente porque tive mais uma vez, imenso prazer em ler. Que bom que esquecemos, do que é ruim e do que é belo, não acha?
    Seu texto me levou para os mesmos lugares que você habitou, tive a mesma desconfiança do computador, fiquei ensaiando durante quatro anos até que meus filhos me deram um ultimato e resolvi enfrentar o desafio.
    Não consigo nem quero me desfazer de alguns velhos cadernos, de folhas amareladas e orelhas enroladas, aquelas pontas que se enrolam por causa da umidade. Enfim, seu texto me levou para o passado, numa viagem deliciosa, nas asas de sua linguagem cheia de graça, cheia de afeto, cheia de imagens poderosas. Lindo, obrigada.

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