Conversas no bar: Nelo, meu amigo de sempre

Nelo é meu amigo de sempre, aquele que costumamos chamar de melhor amigo, irmão, confidente confiável. Acho que todos deveriam ter um amigo assim.

Uma vez por semana nos encontramos em um bar e aí “consertamos o mundo”, discutindo todos os assuntos: política, esporte, economia, literatura, música, doenças, amores, mulheres etc e etc.

Se eu sou o verso, ele é o reverso, e isso torna nossos encontros agradáveis: sempre há discordâncias que enriquecem os debates ali onde costumamos chamar de nossa mesa terapêutica.

Se a mulher do Nelo não ficar chamando pelo whatsapp, varamos a noite e abrimos o dia passeando no Mercado Municipal ou tomando café da manhã numa padaria qualquer.

Costumo dizer: os aposentados podem tudo. E ele sempre completa: desde que consigam andar.

No nosso último encontro, atrasei.

– Oi Nelo desculpe, tive um problema lá em casa e não deu para sair antes.

– Tudo bem. Como se fosse à primeira vez, resmungou.

– Vejo que você aproveitou bem meu atraso, já tomou meia garrafa de vinho.

– Esse está ótimo, desceu redondo e hoje eu estou com boa boca. Senta aí, vai querer comer alguma coisa?

Sentei. Quando Nelo está preocupado aparece uma ruga funda entre as suas sobrancelhas.

– O que está pegando? Você não está com cara boa.

– Estou preocupado, vem acontecendo há algum tempo, mas só agora me dei conta de que estou esquecendo coisas importantes.

– Bobagem com a memória que você tem, impossível. Vai ver que lotou seu arquivo aí na sua cabeça, ou, como diz a molecada, seu harddisk está cheio. Conta aí, o que você não lembra?

– Sabe cara, aquela fulana que foi a minha grande paixão dos 20 anos, a Cris. Aquela que nunca passou, que continua grudada em mim como um encosto, como uma alma penada colada em minhas costas.

– Pelo visto ela nunca saiu da sua cabeça. Eh, o primeiro amor a gente nunca esquece…

– Não me venha com essas frases idiotas que até os publicitários usam. O problema é que não consigo lembrar o rosto dela. Tento, tento e tento e só vejo embaçado. Consigo vê-la assim, perfeita, mas de costas, como se estivesse indo embora.

– Quer dizer que você lembra é da bunda dela?

– Pô, não brinca, é sério! Quando a gente tem perda de memória, não é começo de uma demência qualquer, Alzheimer, ou sei lá o quê?

– Não, não é nada disso. Acho que é só velhice mesmo, com uma grande dose de nostalgia.

– Acho que está mais para melancolia.

– Você tem é nostalgia, como os exilados com saudades da pátria.

– Mas eu sou um cara melancólico.

– Sei, sei, você é aquele melancólico do cair da noitinha, com um copo na mão e a música suave de um piano ao fundo. Antes de começarmos uma discussão, veja aí no Google, qual o significado das duas coisas, pra mim uma puxa a outra.

– Espera um pouco olha que interessante, disse Nelo já com o celular na mão, e lê:

Para Freud: “melancolia é um estado emocional semelhante ao processo de luto, mas não há a perda que o caracteriza. A melancolia pode ocorrer sem haver uma causa definida”. No período da Renascença e do Romantismo, melancolia era considerada como uma doença bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma.

 

nostalgia significa o estado de profunda tristeza causada pela falta de algo. É a sensação de saudade originada pela lembrança de um momento vivido no passado ou de pessoas distantes.

– Pois é, Nelo, a “danada da nostalgia” é isso aí. Por mais que a gente tente, somos incapazes de abandonar determinadas memórias afetivas, como velhos amores, antigos padrões de comportamento. Não adianta querer fugir: tais memórias são nossa bagagem, estarão sempre grudadas em nós.  Você tem mesmo é nostalgia e nunca vai se livrar das lembranças da sua Cris.

– E quem falou que eu quero me livrar? Eu quero é lembrar o rosto dela. Só isso!

– Então a solução é você conseguir uma foto.

– Não enche, você sabe que é impossível!  

Passamos horas discutindo o assunto, literalmente fuçando as definições dos dois estados de espírito, até que Nelo olhou o celular e disse.

– Minha mulher já me mandou três mensagens, tenho que ir.

– Puxa, a Dona Onça é mais chata que congestionamento! Ela ainda costuma perguntar: “você vai encontrar com aquele seu amigo bêbado?”

– Sim, quem mandou você encher a cara quando te apresentei a ela?

– Já tem mais de trinta anos. Lembro que não tinha assunto, aí fiquei bebendo.

– Sim, e daí tivemos que te levar carregado pra casa.

– Sempre vou ter que pagar esse mico?

– Não esquenta, ela só fala assim de você pra mim:  nunca na frente de outros.

– Por quê?

– Faz parte do show dela, é uma coisa meio íntima, uma hora te conto. Bem já vou, acerta a conta, a próxima é minha.

– Pode deixar. Mas assim como não existe meio grávida, não existe meio íntima. Ou é ou não é.

-Tudo bem na  próxima semana te conto o que tem por trás disso, tchau.

– Pera aí, pra semana vou trazer um exemplo de um cara nostálgico, para esclarecer de vez o assunto. Ok?

– Ótimo, depois trago uma amostra de um melancólico. Tchau…  tchau, qualquer coisa liga.

– Ei, não se esqueça de levar a Dona Onça para assistir o filme Truman, é ótimo! Assim, quem sabe, ela começa a entender o que é uma grande amizade.

– Pode ter certeza que ela sabe, ela sabe. Até a próxima!

 

Leonardo Forte (Léo), 73 anos, economista, publicitário aposentado, casado, dois filhos e uma neta. Apaixonado por cinema, literatura e música, escreve contos e promove encontros para ensino de jazz.

 

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