Poeira, por Sylvia Loeb

Fiozinho brilhante que vinha lá de cima, caindo devagar. O menino miúdo, olhos enormes, fixava um ponto só, só um, escolhido no meio dos milhares que desciam do céu e do teto escuro do quarto. Chuvisco de prata. Quando o raio de sol cortava o ar, a poeirinha ficava mais brilhante. O olhinho arregalado torcia, descompassava, desengonçava, não querendo perder o pontinho escolhido que acompanhava até chegar ao chão, desequilibrando o que a natureza tinha feito no capricho: duas bolinhas pretas nadando num laguinho branco azulado. Tanto fez, tanto fez que as bolinhas deixaram de correr pareadas, ficaram desconjuntadas, escondida uma, a outra aparecendo, às vezes as duas se encontrando no canto do nariz. Agora eram sempre dois pontinhos prateados que o menino via, aquele riozinho que descia do céu e do teto escuro da sala.
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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

 

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