Homens que amam demais ou doentes de amor? por Sylvia Loeb

I

Sempre falamos em mulheres que amam demais, mulheres que sofrem por seus amores maltratados, por suas decepções,  por sua insistência em mudar seus companheiros, sua necessidade física da presença deles.

Sempre falamos que mulheres que amam demais são as que têm autoestima rebaixada, pois sofreram de falta de amor e cuidado na infância mais remota.

No discurso contemporâneo, os homens maltratam, os homens são insensível, os homens abandonam, os homens abusam, enfim, as mulheres estão em situação de submissão e sofrimento permanentes.

De fato, isso ocorre, muitas são submetidas a maltrato, abandono, abuso, humilhação, e muitas não têm condição material, psicológica, emocional, financeira, ou o que for, para sair desse lugar de sofrimento.

II

No entanto, isso também ocorre com muitos homens, eles também sofrem, muitos são maltratados, abandonados, abusados, submetidos a situações humilhantes. Eles também, por inúmeros motivos, não conseguem sair desse lugar de padecimento.

São os  que ultrapassam os próprios limites,  capturados por impulso que não conseguem controlar.

São os que sofrem e não imaginam que precisam de tratamento.  

São os que são vistos como ciumentos e possessivos, sem se darem conta de que o problema vai muito além disso.

III

São os que sofrem de amor patológico e ciúme excessivo.

São homens dependentes afetivamente, compulsivos por amor, e não necessariamente por sexo.

Geralmente  vêm de  contexto familiar desajustado, relação destrutiva com os pais, seja por ausência, abandono, doença.  Figura paterna ausente que, por vários motivos, não serviu de modelo para seus filhos.

Os modelos parentais são fundamentais na formação do futuro adulto.

A vivência infantil  tende a retornar; o adulto, sem se dar conta, muitas vezes repete os padrões da infância, seja porque não tem outros modelos, seja para viver ativamente o que viveu passivamente, ao que foi submetido quando criança.

IV

Em outras palavras, o homem, agora adulto, que quer agradar excessivamente sua companheira a ponto de esquecer de si, a ponto de se anular, podemos perguntar: isso é amor, ou tentativa de se fazer amar a qualquer preço?

O homem que se torna obsessivo,  que não se importa com mais nada a não ser com a mulher de quem depende para respirar, podemos perguntar: isso é amor, ou fragilidade extrema?

O homem que não pode se separar da mulher nem por um instante, pois sente-se abandonado, rejeitado, ameaçado de perda, podemos perguntar: isso é amor, ou insegurança sem limite ?

O homem que começa a viver em função da mulher, que vasculha sua vida, que controla seus passos, podemos perguntar: isso é amor, ou é um homem que vive sob ameaça constante?

O homem que, ao término de uma relação afetiva, sente que o mundo acabou, que pensa em suicídio, podemos perguntar: isso é amor ou carência afetiva mortífera?

V

Este homem sofre.

Sofre porque se anula, porque torna-se obsessivo, porque sente-se rejeitado, ameaçado, traído, porque sua vida vira um inferno. Inferniza a vida da mulher e a sua.

Este homem está doente, precisa de tratamento.

Situação delicadíssima, pois desde crianças foram ensinados a serem fortes, a não chorarem. O sofrimento é encarado como fraqueza, a procura de ajuda,  covardia.

Álcool, jogo, drogas, troca incessante de mulheres, acidentes, todos os tipos de excesso para lidar com a depressão.

Este homem, se não procurar ajuda, pode chegar a extremos: assassinato ou suicídio.

Este homem está doente.

Este homem precisa de tratamento.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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