Never, por Léo Forte para o Clube dos Escritores

(Ouça enquanto lê. A música é uma das gravações da belíssima Goodbye, interpretada por Betty Carter.)

Acordou de repente como se tivesse levado um tranco de alguém, abriu os olhos. Estava nu, na cama, em cima das cobertas e das roupas do dia anterior; começou a tomar consciência da realidade. Primeiro a boca ruim, amarga como fel, e a bexiga estourando, depois o enjoo seguido daquela dorzinha na nuca, aumentando e aumentando.

Levantou cambaleante, manteve as pernas distantes uma da outra para ter mais firmeza e, com uma das mãos apoiada na parede, deu os primeiros passos. Foi até o banheiro no apoia aqui e acolá, com a dor na nuca agora ribombando.

Sentou na privada, apoiou os cotovelos nos joelhos, segurou a cabeça com as duas mãos e desaguou um mar de urina. Mais leve, levantou sustentando-se na bancada da pia à sua frente, abriu a torneira e enfiou a cabeça debaixo do jato forte da água fria molhando o rosto e a nuca que latejava.

A consciência começou a voltar, a dor diminuiu um pouco. Passou a se sentir mais firme e um pouco mais forte.

Ergueu a cabeça molhada, a água escorrendo pelos cabelos já meio ralos, olhou para o espelho em frente e se assustou: semblante caído, amassado, grandes olheiras, olhos cheios de raízes vermelhas, nariz e lábios meio inchados. Estou um lixo – pensou.

Sua boca se encheu de saliva, avisando. Ajoelhou-se rápido, debruçou sobre o vaso e com uma grande convulsão no estômago vomitou um primeiro forte jato do excesso da noite anterior. Nova reviravolta nas entranhas e mais uma golfada forte. Estava um pouco melhor, sabia que vinha mais e veio o que detestava: novas torções no estômago sem nada para sair a não ser tossir e cuspir.

Levantou agora mais firme, lavou a boca, gargarejou água para ver se melhorava um pouco o gosto horrível, amargo, de vômito e bile.

A noite anterior começou a voltar rápida como um corisco, em flashes, e foi acelerando, acompanhada de todos os sentidos tendo como fundo aquela música com a Betty Carter cantando, gemendo e gemendo “I Never Forget You”, repetindo… repetindo… repetindo.

One comment

  1. Coitado, que ressaca pavorosa! Reconhecemos todos os sintomas, e como o protagonista bem sabe, vem mais, vem mais…
    Seguimos o personagem passo a passo, o vemos se olhar no espelho depois de desaguar, a cara a amassada, um lixo, coitado, coitado.
    E a Betty Carter? Cadê o link da música para gente escutar enquanto lê?
    E aí? O que acontece depois?
    Me deixou curiosa, fico esperando.

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