O paraquedista, por Sylvia Loeb

O paraquedas de Danilo Valdés é vermelho sangue com gomos verdes, amarelos e azuis; quando aberto parece fibrilar, um imenso coração. 

Danilo Valdés sente-se seguro, amarrado nas cintas de couro, abrigado na sua fortaleza de vento. Pendurado em pleno céu, experimenta a liberdade dos homens que têm coragem.

Já saltou com mulheres por puro deleite, mas também já levou alimentos para uma aldeia indígena quase dizimada pela fome. Salvou náufragos com um bote de borracha, única possibilidade no emaranhado da floresta.

Um gancho, amarrado a um cabo resistente, abre-se instantaneamente depois do salto. Aprecia os de baixa altitude, em queda livre, até quase atingir o solo, com risco de morte imediata, devido ao pouco tempo que o dispositivo tem de ser acionado antes da aterrissagem.

Adrenalina, componente que Danilo Valdés não pode prescindir.

Paraquedista profissional, com mais de três mil e quinhentos saltos em sua longa carreira.

Instrutor, camera man, não lhe faltam títulos nem medalhas, um veterano. Cuidadoso nos mínimos detalhes, seus alunos o temem e  admiram, jamais sofreu um revés.

Ombros largos devido à prática da profissão, atarracado, a natureza o privilegiou: homens de longas pernas se machucam com mais facilidade ao chegarem ao solo.

Marisa Amaral já saltou com Danilo Valdés. Ela é leve, magra e cheira bem. Ele gostaria de saltar com ela mais vezes, gostaria de aterrissar em sua cama. Nada no comportamento de Marisa Amaral lhe autoriza a pensar que a mulher esteja interessada nele, porém Danilo Valdés está interessado em Marisa Amaral. Ela é mais um terreno a ser explorado, atentamente, antes do salto.

Zonas pantanosas devem ser evitadas, pois Danilo Valdés sabe que essas áreas, antes leitos caudalosos e largos, são a parte abandonada das águas de um antigo rio. Meandros repletos de plantas submersas, raízes e algas que se enrolam no corpo dos homens, lugar propício para pequenos animais, rãs, crocodilos, insetos aquáticos, miasmas fétidos.

Zonas arenosas também devem ser evitadas; partículas soltas de mineral ou rocha, areia, cascalho, seixos ou calhaus rasgam a seda do paraquedas.

Danilo Valdés aprecia saltar em clareiras de florestas, solo macio, espaço aberto, garantia segura contra ataques de surpresa.

Marisa Amaral, terreno macio, pouso suave em noite de verão. Danilo Valdés amarra-se em seu paraquedas verde e vermelho, um cogumelo fibrilante no céu azul de cobalto.

Em queda livre aterrissa em Marisa Amaral, nem pântano, nem areia, muito menos clareira; areia movediça, areia gulosa, engolidora, viscosa, de onde Danilo Valdés não consegue sair, quanto mais se debate, mais afunda na densidade, no grumo, no coalho , no mingau de Marisa Amaral.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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