Pelo buraco da fechadura, por Sylvia Loeb


 

 

Era casa e era loja de senhoras, assim se falava naquele tempo. Vendia roupas femininas e lingerie de cetim de seda, que eu passava a mão quando minha avó, a dona da loja,  não estava olhando, pois podia sujar e amassar tecido tão fino, tão macio, cor de carne, cor de marfim, cor de pele.

Gostava de espiar as mulheres se trocando no provador. Tiravam a roupa, se olhavam ao espelho, jogavam os cabelos de um lado para o outro, e falavam e riam muito. Cada combinação, cada camisola, cada calcinha com rendas, um luxo. As mulheres punham os braços ao redor de si mesmas, se abraçavam para sentir a maciez do tecido na própria pele. Eu também queria vestir uma lingerie daquelas e me abraçar, ou ao menos, abraçar uma mulher para sentir a suavidade do tecido no contato com o corpo, e o aroma de perfume que emanava delas.

A  costureira, negra e gorda, cheirosa de alfazema, alfinetes entre os dentes brancos, conversava e ria. Marcava uma barra, marcava uma prega debaixo dos seios, marcava a cintura, os alfinetes na boca, que ia tirando um a um, sem se espetar.

Bem tarde da noite, era quando ela ia tomar banho. Eu me esgueirava descalça e silenciosa pelo corredor escuro e, na ponta dos pés, punha o olho no buraco da fechadura. A chave enfiada atrapalhava um pouco a visão: um corpo negro, grande, só me recordo dela de costas, quase de perfil, a barriga proeminente, os seios redondos, a pele brilhante. Levantava a perna para se enxugar, mostrando a coxa volumosa.

Uma madona negra, envolta em tecido branco, com gestos largos e vagarosos, exibia-se, sem saber, aos olhos da menina curiosa para descobrir o que é uma mulher.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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