Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A dama do lago,
por Liliana Wahba

Com sensação de frio constante, nada a aquecia; luvas no inverno e no verão, meias de lã. Cresceu cercada de babás anônimas, em perpétua mudança de país, seguindo a carreira de atriz da mãe. Famosa e admirada, dizia não se separar da filha jamais, ainda que lhe lançasse olhares curiosos e distantes, cada vez uma surpresa ao entrevê-la parecendo realizar um esforço para lembrar-se de onde surgira essa criança, essa adolescente e, finalmente, essa jovem.

Com 18 anos foi desvirginada e emancipou-se; um rapaz até bonito, com quem transou após uma festa qualquer, de modo rápido, em pé num canto qualquer. Gotas de sangue fluíram e coagularam de pronto; sentiu uma fisgada e mais nada, nunca o viu depois nem pensou nele.

Na faculdade era admirada pela beleza herdada da mãe, mas sem o carisma; as pessoas não sabiam dizer o que as afastava, ou melhor, o que impedia que dela gostassem; nem ela sabia e pouco se importava. Passaram-se os anos sem confidente ou amiga, com parcerias sexuais fugitivas e esquecidas. 

Um casamento por conveniência social durou sete meses; o marido não entendia a frieza dela, física e afetiva. Ela própria não procurava entender, os médicos diagnosticavam circulação periférica, o coração funcionava bem. Alguma vez sentira falta de afeto? Nem lhe ocorria. Tinha conforto material, sucesso na carreira de neurocirurgiã de casos difíceis, aneurismas de complicado acesso que seu bisturi elétrico acertava em áreas que amedrontavam outros médicos.

Quase indiferente a lazeres gostava de se alojar em regiões glaciais e distantes. Apesar de sua pele fria, de suas extremidades permanentemente geladas, a neve e o gelo lhe traziam uma vaga sensação de bem estar, bastava agasalhar-se mais.

Em uma dessas longas férias os guarda florestais a encontraram: flutuava no lago gélido. Longos cabelos brancos e túnica da mesma cor, as mãos lisas com unhas pontiagudas cor de prata e pequenos pés. Apesar de seus 80 anos o gelo alisara as faces e as mãos, suspendendo a aparência dos anos passados. Após ser retirada da água, a forma consolidou-se na superfície gelada com surpreendente realismo, tornando o local um ponto de peregrinação.

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LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

3 comments

  1. Ártico da alma, da beleza, da alegria, do calor, da amizade, do amor.
    A morte aos oitenta anos finalmente completou seu trabalho, com um toque de requinte: uma escultura de gelo e prata.

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