Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A dona da rua,
por Sylvia Loeb

Lábios imensos, carnudos, dobravam-se  para fora da boca feito pétalas maduras de flor vermelha desabrochada. Caminhava com passadas largas, pra lá e pra cá, ao longo de uns 20 metros da rua. Sua rua.  Saionas largas sobrepostas, os cabelos escondidos por turbante colorido, falava animadamente com alguém invisível. A cabeça altiva, o peito pra frente, a conversa animada, ar de triunfo.

No dia seguinte foi vista em outro bairro. Camadas sobrepostas de sacos negros de lixo vestiam seu corpo; na cabeça, um grande arranjo negro dava a impressão de ser mais alta. Como bagagem, um amontoado de sacos que carregava com cuidado. A mesma boca vermelha desabrochada. Um ar nostálgico no lugar do majestático. Silenciosa, cansada de convencer uns e outros de alguma coisa que só ela sabia.

Tinha sido roubada: a panela, o abridor de lata, as saionas, o pano da cabeça, cinco pregadores, um ovo de madeira, metade de um rolo de papel higiênico, uma faca de cabo quebrado. Só não tinham levado o monte de sacos de lixo que guardava para alguma emergência.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

3 comments

  1. A crônica resgata os personagens descartados da cidade e nos obriga a pensar sobre a noção de dignidade. Quem e como se mantém digno nesta travessia implacável da existência?

  2. pobrezinha, arrancaram as suas ilusões construídas com tanta graça!

    roubo de fantasia!

    onde a realidade falha, a fantasia corrige, disse Freud!

    artes cênicas! o texto aqui é uma aula de figurinos.

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