Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A fé nos salva,
por Liliana Wahba

 

 

 

Em Portugal, em festa religiosa da ilha da Madeira, enquanto os fieis acendiam velas perto de uma fonte e de uma imagem sagrada de Nossa Senhora, um carvalho de 200 anos caiu e matou 13 pessoas, ferindo 52. Eventos semelhantes já ocorreram em procissões à Meca e outras. E eventos semelhantes ocorrem sem vinculação nenhuma a atos religiosos. Ou seja, o acaso e o acidente tocam qualquer um a qualquer momento e a fé não é proteção contra o mal, ou pelo menos, contra todo mal. Seria talvez uma proteção contra o mal moral. De modo que ter ou não ter fé cabe à convicção íntima, interna, e ao sentimento de bem-estar que a mesma fornece. A ingenuidade ocorre – junto à infantilidade – quando se atribui à fé uma vacina contra o mal, quando se atrela à mesma, e a qualquer divindade que a acompanhe, uma aura de milagrosa redenção e de promessa de paraíso, de isenção da maldade, seja intrínseca, ou alheia. A fé diz respeito a um alinhamento interior com algo maior, uma conexão que pode trazer força e inspiração, até mesmo iluminação para alguns. Já, a superstição religiosa exime o homem de sua responsabilidade perante a incerta existência, seja com fé ou sem ela.

 

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

One comment

  1. Liliana – ótimo! O sentido que vc dá à ‘fé’, afastando-a da ‘superstição’.

    Há um artigo de Luis Claudio Figueiredo, bem a propósito, que [penso] coincide com aquilo que vc propõe.

    Vc fala de uma ‘conexão que pode trazer força e inspiração, até mesmo iluminação’.

    Ele diz [no resumo inicial] da ‘possibilidade de uma esperança que se baseie na fé, sem que a esta noção se atribua qualquer conotação religiosa. A instalação da esperança como princípio – baseada na fé – abre o campo da criatividade […]’.

    [in FIGUEIREDO, A questão das crenças e da fé no atendimento psicanalítico a pacientes neuróticos. Alter: Jornal de Estudos Psicodinâmicos, Brasília, v. XXII, n.2, p. 197-213, 2004; e, Belief, hope and faith. International Journal of Psycho-analysis , Londres, v. 85, n.6, p. 1439-1453, 2004].

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