Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A imperfeição do losango,
por Paulo Akira

 

 

 

A IMPERFEIÇÃO DO LOSANGO

Para ser lido ouvindo Take Five de Dave Brubeck Quartet no álbum Time Out (1959). Clique no play abaixo!

 

O cavalo quando corre,
e sua crina se levanta,
traçando um risco no horizonte,
parece que, do ponto onde morre,
surge da mesma linha que um pouco antes
era um simples sólido varando o espaço,
enovelando o tempo que o envolve.
Mas se o vir, assim de lado,
na paisagem estampado, seda,
cavalo oco,
cavalo com cascos,
cavalo cavado no eco,
cavalo intermitentemente vácuo,
a impressão será de que,
de onde você está,
não haverá escapatória para a curva
e seu corpo seguirá o destino,
tornando-se a própria imagem do equino:
cavalo – vocábulo solto no cascalho.
E se, além disso, você proferir um único ruído,
um estalido, uma sílaba
ao som de patas e pedras,
a insuficiência do sentido assim visto,
realizar-se-á, enfim, em acústico cavalo.
Cavalo!
Mas percorra com a vista o cavalo que vaga;
siga a construção do quadrado
no movimento dos olhos.
A onda sonora que diz da quadratura
se ela, mais que a criatura,
se inclina ao erro do quadro,
ou se quem vê,
vê na perfeição do cavalo
ou na imperfeição de quem escuta
a linha que os une, reta e curta;
e que perceber o animal é
distorcer os ângulos
em losango,
é ser quem vê e o cavalo
num único bloco agudo,
um som unívoco de ser e estar
na visão de quem escapa
para além do cavalo
até a existência de quem
ouve e vê o cavalo.
Cavalo, cavaco do ouvido.
Cavalo, cravado no claro.
Cavalo com signos e desígnios.
Cavalo, vasto encanto do abstrato.
Não cavalo no simulacro
de quem lê, ouve ou sabe,
mas imagem de tudo que vem a ser sentido.

 

TAKE FIVE
Paul Desmond / Dave Brubeck / Lola Brubeck
Cantora: Carmem McRae

Won’t you stop and take a little time out with me, just take five;
Stop your busy day and take the time out to see I’m alive.

Though I`m going out of my way,
Just so I can pass by each day,
Not a single word do we say,
It`s a pantomime and not a play

Still I know our eyes often meet,
I feel tingles down to my feet,
when you smile that’s much too discrete,
sends me on my way.

Wouldn’t it be better not to be so polite, you could offer a light;
Start a little conversation now, it’s alright, just take five, just take five.

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PAULO AKIRA NAKAZATO – 55 anos, físico. Adora palavras e às vezes organiza algumas em contos e crônicas, esperando que façam sentido. Mas o que o atrai, mesmo, é quando elas orbitam no poema e se arranjam em sistemas estelares próprios.

 

5 comments

  1. Nada melhor que Take Five para acompanhar as palavras que orbitam este seu lindo poema.
    Cheguei a sentir na imperfeição de um perfeito quinto tempo o bater dos cascos do cavalo.
    Parabéns, tudo ficou maravilhoso.

  2. Belíssimo poema, Paulo!
    Energizado pelo galope da música.
    Aceite meu verdadeiro parabéns!
    Fiquei feliz com a escuta / leitura. Por mim e por você enquanto criador.
    Galope! Vá em frente!
    Luiz

  3. Nunca pensei em cavalo desse jeito, nunca pensei em nada desse jeito, nunca pensei que tudo é simulacro de quem lê, ouve ou sabe, nunca pensei que tudo é imagem de tudo que vem a ser sentido.

    Sensacional a forma, o trote do Take Five, que constrói o cavalo acústico e o espanto dos 3 últimos versos!
    Eureka!

  4. Escrita primorosa. Na primeira leitura e escuta: intriga, som e sensações visuais e acústicas. Na segunda e terceira, impressões gravadas de espaços e tempos cruzados, memórias, pausas para reconhecer e múltiplos ângulos desse reconhecer, perspectivas subvertidas diante do impacto de ser,
    os vocábulos galopam ou dançam: “distorcer os ângulos em losango”, “é ser quem vê e o cavalo
    num único bloco agudo”, “um som unívoco de ser e estar na visão de quem escapa”, “imagem de tudo que vem a ser sentido”.

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