A Partida, mais viva do que nunca - adília belotti - o melhor dos 50 - fifties mais

A Partida, mais viva do que nunca

“… Que eu esteja vivo na hora da minha morte.” A frase é do pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, com obra bem viva passados mais de 30 anos de sua morte. Consta que ele deixou o registro numa espécie de diário que se encaminhava para uma autobiografia, num momento de reconhecimento da proximidade da morte. Não conheço o texto e seu contexto, que podem ter querido expressar o desejo de não querer estar morto antes de morrer de verdade. Mas a frase tem serventia perfeita para resumir, a meu ver, um dos mais belos filmes dos últimos tempos: a produção japonesa Okuribito, em cartaz entre nós como “A Partida”.

A história do violoncelista desempregado que volta à cidade natal e começa a trabalhar como preparador de mortos para funerais é deslumbrante em todos os sentidos. Um filme completamente bonito — no visual, no roteiro, no conteúdo, na música… E justamente reconhecido – levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

Andei pensando no filme. O tema da morte, já disse por aqui, se impõe na vida de quem entra nos cinqüenta. Fica mais próxima a percepção de que você pode partir a qualquer momento, e mais próxima ainda se circunstâncias colocam a partida como parte do jogo — quando você ouve, por exemplo: “Então boa sorte, que tudo dê certo”. Se vai pegar um avião ou fazer uma cirurgia, são palavras de esfriar a espinha, soam mais “urubúticas” que acolhedoras. E mesmo assim vamos lá, dar a cara para o futuro…

Melhor é se voltar para “A Partida”, o filme, onde a morte é acolhedora porque tem vida, onde o corpo não é cadáver, mas uma pessoa em estado de passagem nas mãos delicadas de um violoncelista. Ele, aprendiz no ofício, comanda o delicado ritual na presença da família. A morte se expressa, solene. Não se cala, não se esconde. Aos familiares e amigos é dado espaço e tempo especiais para sentir a partida: com sofrimento, remorso, culpas, acertos de contas, preces, gestos, boas lembranças. Ali o morto está mais vivo do que nunca. A morte não é fim. Ao contrário, tem potencial para muito reencontro.

Quando acontecer, quero assim “passar meu ponto” no planeta. Como Winnicott, quero estar viva na hora da minha morte para instigar e renovar nas pessoas queridas o desejo de alcançarem seus próximos passos, de continuarem firmes e bem vivas no caminho. Mas aviso a esses peregrinos: prometo infernizar a vida de todos, se me deixarem trancada sozinha num velório para evitar assaltos.

A Partida (Okuribito). 2008. Japão. Direção: Yôjirô Takita. Elenco: Masahiro Motoki (Daigo Kobayashi), Tsutomu Yamazaki (Ikuei Sasaki), Ryoko Hirosue (Mika Kobayashi), Kazuko Yoshiyuki (Tsuyako Yamashita), Kimiko Yo (Yuriko Kamimura), Takashi Sasano (Shokichi Hirata). Gênero: Drama. Duração: 130 minutos.

Outras resenhas interessantes de “A Partida” nos blogs: Plano sequência / Cinema é minha praia / Crítica (non)sense da 7arte

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