O melhor dos 50:
A velhice como ela é

O espetáculo de dança que se apresentou neste final de semana no teatro Alfa Real, MATS EK, ANA LAGUNA, YVAN AUZELY,  poderia ser chamado:
“A velhice como ela é”.

São 3 cenas.
MEMORY: um casal.  Ele um senhor de idade, deve ter uns 70 anos, ela um pouco mais moça, porém idosa também. Gorda, deselegante, mas mexe-se no palco com facilidade. A primeira impressão que impacta o espectador é a estética: o casal não corresponde, em absoluto, à imagem que fazemos de bailarinos, esbeltos, elegantes. Vemos o casal em uma movimentação que novamente não corresponde aos padrões conhecidos: a harmonia é muitas vezes grotesca, pequenos gestos que revelam um cotidiano sem sentido. A mulher entra carregando uma luminária, o homem senta-se em um sofá, levanta-se, ela corre, ele corre atrás, em alguns momentos parecem brincar, em seguida se separam , mas sempre em relação um com o outro. Há uma abraço terno, depois nova separação. Um momento em que ele se joga no sofá, talvez cansado, ela o embrulha em uma manta como se estivesse morto e o joga no chão. Corre-corre novamente. Mais um abraço terno. Ela sai de cena devagarinho, ele vai atrás, mas antes apaga a luminária.

A plateia emudecida.

Foto: divulgação

OLD and DOOR: um vídeo colorido onde parece a mesma mulher, em primeiro plano, close do seu rosto. A pele é enrugadíssima, o cabelo ralo e esfiapado, uma velha. Está vestida com uma túnica vermelha, larga, que cobre todo seu corpo. Vemos seus pés, dedos retorcidos, a pele de suas pernas, manchadas. A mão de uma pessoa jovem  acaricia seu rosto. Ela sorri, sai dançando. Novamente ficamos espantados, o corpo é pesado. Uma bailarina?! Isto é dança para se mostrar em teatro?! Vamos acompanhando a relação dos dois que se revela em gestos, ele passa a mão em seu rosto, em sua cabeça, ela sorri. A cada cena uma porta abre-se e fecha. Em determinado momento surge uma outra bailarina, jovem,  vestida com a mesma túnica vermelha. Dança maravilhosamente bem. Movimentos impetuosos, vigorosos. O mesmo homem que acariciava a outra também é um bailarino, jovem, belo e apaixonado. Há outra cena em que a velha aparece deitada e o corpo do jovem está em cima dela com o pênis para fora, percorre seu corpo, acaricia seu rosto. A porta abre-se e fecha diversas vezes e a cada abertura, um novo acontecimentos: o homem jovem remando, ela sorrindo feliz no bote, ela dirigindo um carro com a cabeça fora da janela, os cabelos ao vento. Uma esguichada fortíssima (a plateia ri),  ela passa mão no rosto arrebanhando os cabelos molhados. Sorri. A porta abre-se e fecha mais algumas vezes e na última cena o homem lhe arranca a túnica e ela sai de cena, nua, o corpo de velha marcado pelo tempo.

A plateia emudecida.

AXE: um lenhador, machado na mão, corta madeira. O machado cai com gesto preciso em cima de cada tora que se abre em dois. Outro golpe igual separa as metades. Há uma pilha imensa, infindável, atrás dele. O movimento é repetitivo, ficamos fascinados pela habilidade com que desempenha a tarefa. Surge a mulher. Procura chamar a atenção do homem, dançando ao redor. Ele não olha, concentrado em rachar a madeira. A indiferença dele  é total. Ela tenta de tudo, oferece-se, ajoelha-se, agacha-se, ele desvia dela. Em dado momento ela consegue sua atenção, ele larga o machado e dançam juntos, uma movimentação de aproximação e recuo, de paixão e desprezo. Ele volta a pegar o machado, uma nova tora, levanta os braços para desfechar o golpe, ela segura o machado no ar, no ato não completado. Eles param. Ele sai de cena, ela vai atrás, devagar com o machado na mão.

A plateia explode em aplausos.

Foto: divulgação

Saí sem saber o que pensar, chocada, mexida, querendo entender.

Não conseguia processar, não encontrava referência em que me apoiar para saber o que estava sentindo.
Pouco a pouco, em conversa com uma amiga que estava junto, consegui me situar.

Os artistas estão falando da velhice, velhice sem máscara, sem disfarce.
A velhice como ela é.

A partir deste pensamento, ficou mais claro ver que em DOORS trata-se de uma viagem pelo passado, pelos momentos dos encontros amorosos, pela alegria de viver, de tomar banho de esguicho, de pescar, de fazer amor, e sobretudo de dançar. A jovem bailarina é ela mesma, plena de vida, de beleza.

MEMORY remete aos momentos da vida de um casal com todas as vicissitudes pelas quais passamos, encontros, desencontros, alento, desânimo.

AXE  fala da violência do homem, preocupação da mulher,  confronto entre os dois.

As interpretações variam de um espectador ao outro, mas o que me sensibilizou foi a coragem com que os artistas colocam diante de nós a questão da velhice, que inevitavelmente leva à morte.

À medida que envelhecemos vamos chegando cada vez mais perto da morte. É inexorável. Biologicamente somos destinados a perecer.

Como a psicanálise lida com isto?
Para a psicanálise somos regidos por dois princípios, a Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte, duas forças que, se estiverem em harmonia, possibilitam uma vida possível. Quanto mais uma delas se manifesta, maior influência na existência.

Quando somos jovens, a vida em nós é muito forte, queremos realizar nossos sonhos, temos força física, ambição, entusiasmo. Claro que há momentos em que ficamos menos potentes, principalmente  em momentos de doença, quando então a morte se insinua. Ou nas separações, na perda de seres queridos… quando somos tomados por uma tristeza sem fim…mas que, em muitos casos, a vida sai vencedora,  a vida chama para ser vivida.

À medida que envelhecemos a morte começa a fazer parte de nossa perspectiva. Quem chegou aos sessenta, sessenta e poucos anos, seguramente tem menos tempo de futuro do que de passado.

O que nos resta então? Viver o presente, é a resposta que tenho.
Ficar atentos para que não morramos antes de nossos corações pararem de bater.

E este espetáculo magistral nos mostra de forma contundente o que fazer da velhice. Criar, seja pela dança, música, teatro, literatura, cinema, seja simplesmente e fundamentalmente, pela vida.

MATS EK,  coreógrafo e dançarino, nos diz no folheto do espetáculo:
“Eu não estou interessado em mostrar a dança, mas a vida em si, através de situações humanas.”

PS: infelizmente não consegui uma imagem de OLD AND DOORS.

Confira alguns teasers do espetáculo:

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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