Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A velhice como ela é

 

 

 

Cara Sylvia

Faz dias que estou me sentindo desanimada. Apesar da minha idade, normalmente sou uma pessoa cheia de energia, com muitas atividades que me dão prazer.

Sou uma profissional liberal com bastante sucesso, nem penso em me aposentar. Já fiz anos de terapia, o que me ajudou a atravessar momentos bastante difíceis.

Sou considerada idosa, sem saber qual o significado desse adjetivo. Até há pouco tempo, minha vida não correspondia à ideia que tenho de idosos, pessoas que estão esperando o tempo passar.

Vivo sozinha há anos, mas, até então, esse fato não tirava minha alegria de viver pois tenho amigos queridos e uma família que me dá muito suporte afetivo.

O que está acontecendo comigo?

Não quero perder a alegria, o bom humor e o interesse pela vida.

 

Querida Antônia,

Você tem tudo para se sentir realizada e feliz: é alegre, interessada na vida, produtiva, rodeada de amigos e de uma família amorosa.

De modo geral, mulheres sozinhas queixam-se de solidão, da falta de um companheiro, mas parece que esse não é o seu caso.

Convido-a a olhar mais de perto o que você mencionou:

Cheia de energia: não somos máquinas nem motores, estamos sujeitas a todos os tipos de acontecimentos que impactam uma vida: o estado de saúde, sono, hormônios, o clima, a luz, oscilações nas relações afetivas e familiares, preocupações, contas a pagar, demandas de trabalho, alteração de peso, nossa imagem ao espelho…

Com muitas atividades: excelente termos muitos afazeres, principalmente se  nos dão prazer. Mas mesmo assim, há momentos em que o excesso de coisas a fazer cansa, pois afazeres implicam em fazeres e isso pode causar fadiga.

Profissional liberal com bastante sucesso:  ser reconhecida por aquilo que fazemos é condição necessária para uma boa quantidade de satisfação. Imagino que seu mal-estar não provenha daí.

Anos de terapia: que devem ter-lhe ajudado muito, pois falar sobre nossos problemas diante de um ouvinte qualificado ajuda a entender o que nos aflige.

Imagino que esteja se perguntando o porquê desse mal-estar sem motivo aparente. E posso imaginar, também, que não achou nada digno de nota.

Penso que nós, mulheres modernas e realizadas, não precisamos estar felizes o tempo todo, não precisamos esbanjar energia em tempo integral, estarmos sempre ocupadas com os milhares de afazeres. O mesmo vale para a alegria, o bom-humor e o interesse pela vida.

Não precisamos ser inteligentes, espirituosas e termos visto todos os filmes imperdíveis, as peças de teatro de vanguarda, e as últimas exposições de arte contemporânea. Muito menos fazer yoga e musculação e alongamento e aeróbica para ficarmos saudáveis e com o astral lá em cima.

Acho que podemos e devemos nos dar conta de que somos velhos/ velhas/ idosos/ idosas, o que significa que já vivemos muito, vimos muitas coisas na nossa longa vida, para o bem e para o mal.

Acho que podemos, e devemos, nos dar conta de que a velhice é um fato, muitas vezes acompanhada de dores, quando pode então, se tornar um fardo.

A vida exige alguns momentos de recolhimento, inclusive para processarmos a avalanche de acontecimentos que nos bombardeiam todo o tempo, seja pela TV, pelas redes sociais, pelas demandas cotidianas.

Hoje em dia vivemos a ditadura da juventude, não se pode envelhecer, o velho tem que estar jovem e apto para as surpresas maravilhosas que a vida vai lhe oferecer.

Ou seja, estamos imersos na ditadura da velhice!

O velho tem que estar saudável, parecer saudável, sentir-se vivo, curioso e apto para todas as novidades, nem tão novas assim.

Não há mais tempo nem tolerância para o envelhecer, que ainda é visto por muitos como doença, senilidade, perda de força.

Nós, velhos, somos produtos de nosso tempo, estamos nós também imersos nesse consumo de juventude eterna; velhos que não podem mais se deixar quietos, que não podem mais ficar desanimados, pois têm tudo para serem felizes: muitos afazeres, muitos interesses, realização profissional, família, amigos.

Um espaço de tolerância para o cansaço, para o desânimo, para o silêncio, para a solidão, para o pranto.

Um espaço para outras dimensões da vida, para que ela possa fluir novamente.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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