Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A&A, por Paulo Akira

– O que comemoramos?
– Um jantar. Um simples jantar.
– Do jeito que me convocou, eu pensei que tivesse uma grande notícia.
– Queria experimentar uma receita e gostaria da sua opinião.
– Receita do quê?
– De carne. Assada.
– Carne do quê?
– De cordeiro.
– Não sei distinguir cordeiro, ovelha, carneiro ou cabrito. Talvez tenha comido cordeiro sem saber que era cordeiro.
– Cabra é fêmea do bode e geram o cabrito. Carneiro é macho da ovelha e dão o cordeiro.
– Então, está me oferecendo um filhote em sacrifício.
– Não coloque assim. Senão não vamos comer nada.
– Tá bem. Mas é boa?
– Excelente. E tem um pinot noir.
– Agora percebi porque todo o requinte da mesa.
– Mas tem algo mais…
– O quê?
– Sei que gosta de uma boa carne com bom vinho.
– Acho que sim.
– Depois de tantos anos jantando juntos, fui me dar conta há alguns dias.
– E achou estranho?
– Achei estranho pensar nisso.
– Por que nunca tinha pensado antes, é isso?
– Nunca tinha pensado muito nos seus gostos.
– E agora…
– Eu sonhei com você ontem.
– Comigo?
– Há quantos anos nos conhecemos?
– Vixe! Não sei.
– Pensa…
– Desde 1972… faz 45 anos.
– Já testemunhou dois casamentos meus e muitas outras coisas.
– Fui eu quem armou um deles.
– Como você me vê?
– Pergunta difícil. Eu vejo como você é…
– E como eu sou?
– Porra, um interrogatório!
– Eu gosto disso em você.
– Disso o quê?
– Dessas explosões.
– O que tá querendo me dizer?
– Que no sonho eu vi você diferente.
– Me viu como?
– Atraente…
– Quê??
– Olhos brilhantes, cabelo macios, pele aveludada, pernas quentes. Lábios deliciosos. As sobrancelhas excitantes.
– Saco… esses copos altos…
– Não se preocupe que não vai estragar, é só água.
– …
– Eu te cobria de beijos.
– Quer parar com essa besteira.
– Para com esse guardanapo e me olha. Não é besteira. É descoberta.
– Que descoberta?
– No sonho dizia que me amava.
– Gosto de você.
– Não. Que me amava. Não é a mesma coisa.
– Não acredito que está acreditando no sonho.
– Não é o sonho. Sou eu. Como disse, há alguns dias eu venho pensando. Lembrei de alguns lances. Vasculhei a memória. Ontem sonhei com você e acordei diferente.
– Como assim?
– Acordei com tesão.
– Vamos parar com essa conversa. Acho que vou embora.
– Espera. Pela primeira vez eu te vejo sem resposta. Te pegou também?
– O que me pegou foi a insanidade. O que está fazendo?
– Chegando mais perto.
– Pra quê?
– Pra isso… e mais isso.
– Espera um pouco. Vamos conversar direito.
– Já conversamos muito. Faz anos. Só quero uma coisa. Isso…
– Caramba! Acho que não vai dar certo…
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PAULO AKIRA NAKAZATO55 anos, físico. Adora palavras e às vezes organiza algumas em contos e crônicas, esperando que façam sentido. Mas o que o atrai, mesmo, é quando elas orbitam no poema e se arranjam em sistemas estelares próprios.

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