Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Ah, o amor!
Por Sergio Zlotnic

 

 

 

Trabalhar e amar é o que há de bom neste mundo, diz Freud, no fim da vida – não com estas palavras, talvez não nesta ordem! Pois eu digo que compartilhar faz toda a diferença. E isso supõe dois – ninguém divide nada sozinho. Ter um amor destaca o mundo, faz com que enxerguemos em relevo, altera as cores, dá espessura à vida, dá graça, dá profundidade. Leveza, beleza. Disposição. Nosso amor nos põe em estado de êxtase, de epifania… É a melhor de todas as drogas. A mais poderosa.

O fato é que aquilo que a gente diz, faz e pensa depende de quem está perto. E as pessoas que amamos nos fazem melhores seres humanos. Elas puxam de dentro de nós vários “eus” que nem suspeitávamos que existissem. O objeto do nosso amor nos faz lindos, mesmo que sejamos feios; poetas, mesmo que não tenhamos sensibilidade alguma, nem traquejo com palavras; inteligentes, mesmo que tenhamos QI de ostra… Ser amado nos faz generosos. Altera o tempo e faz com que tudo caiba… Nosso amor abre os mares pra que a gente passe. Ele abre também nosso apetite, embora a paixão tire a fome!

Há turbulências, porém, no horizonte. Os amores acabam! Um dia o seu amor vira a esquina. E não volta mais. Terá ido comprar cigarros? Dor! Você pensa que tem saudades dele. Você morre de chorar.  Depois vem o luto. Depois passa – porque tudo passa!

Mas saiba: as saudades não são dele (do seu amor), e, sim, de você mesmo. Saudades de si! A falta que mais dói é daquele “eu” muito melhor, daquele “eu/outro” desconhecido até então, fruto da mágica do amor… Aquele tal “eu” maravilhoso… Never again, baby! Ele (aquele “eu”) vai embora, escoa pelo ralo, junto com o fim da paixão. Você era milionário e subitamente perdeu tudo. As coisas que você dizia, pensava, fazia… Adeus! O “eu” surpreendente, por quem você de fato se apaixonou, evaporou-se. Foi-se. Inês é morta.

Mate seu amor e saiba morrê-lo! Faça uma boa refeição totêmica/canibalística. Faça isso simbolicamente, de preferência, para não ir parar na prisão. A digestão há de tornar tudo aquilo, toda a ilusão vivida, agora de verdade, de fato e de direito, uma parte (cara) de você mesmo. Mas leva tempo. Seja você mais azul e mais denso. Acumule cicatrizes de amor. São histórias. A paixão é um engano bom…

Diga tchau aos seus amores e seus “eus” queridos, espalhados e perdidos pelo mundo. Se amados de verdade, fizeram você se transformar numa outra pessoa! Tenha para sempre saudades daquele outro você mesmo!… E queira ser ainda melhor. Seja “outro” de novo com outros amores que vierem. Faça a fila andar!

 

Fragmento da coluna de dezembro de 2012, publicada com outro título no Portal da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco…

 

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SERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

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