Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Ao diabo a democracia!
Por Eder Quintão

 

 

 

Em três dias Deus tudo fez
Para então ficar descansado
Mas vendo anjos infecundos
Ineptos a melhorar o mundo
Perplexo com o céu parado
Por vê-lo inteiro só povoado
De triste monotonia e enfado
Entediando a augusta paz
Decidiu trabalhar outra vez
Sentindo que corrigir apraz  

Sendo bem pertinaz e ativo
Percebeu por óbvio motivo
Que candidatos ao aprisco
Demandavam outro atrativo
Pois no reino da eternidade
Embora preces e irmandade
Obediência, e simplicidade
Fossem claras necessidades
Uma eficiente governabilidade
Requer o gozo da felicidade

Evitando se dar por vencido
Esperando ser bem obedecido
Ao enfrentar com brilho e brio
Aquele marasmo só de fastio
Concluiu bastante convencido
Ser necessário demitir Gabriel
Embora fosse o decano fiel
Arcanjo-mor, servidor do céu
De comprovada hombridade
Mas de parca inventividade

Fora pela reconhecida retidão
Alçado a supremo guardião
Da entrada do celeste portão
Porém preferiu vê-lo fechado
Para quem não fosse batizado
A transpor o umbral do paraíso
Até por prazo indeterminado
De acordo com seu melhor juízo
Nem mesmo soube demandar
Todo o corpo do céu trabalhar

Lembrou-se Deus do mau juízo
Que fizeram dele no paraíso
Mostrando-se um tanto inepto
De intelecto, meio incompleto
Pois que ordenara por decreto
Que só os puros sem confusão
Após criteriosa investigação
Quanto ao mérito do cidadão
Passassem direto pelo portão
Sem cobrança de contribuição

Mas percebendo em seguida
Câmara de anjos bem dividida
Não teve Deus qualquer saída
Pela primeira vez na longa vida
Apelou aos arcanjos senadores
(Embora notórios bajuladores
Vivendo muito de seus favores)
Aprovarem a imperiosa medida
De ter a demissão reconhecida
Com boa ordem restabelecida.

Surpreso, viu a diretriz rejeitada
Considerada mal encaminhada
E até mesmo de golpe, acusado
Por maioria senatorial indignada
Somente dos arcanjos formada
Que preferiam o portão fechado
E passando horas fazendo nada
Nessa santa inércia comprovada
Pior ainda reiteradamente eleitos
Como se fossem perenes direitos

Mas querendo convocar
Para outro santo ajudar
Indeciso entre continuar
A administrar ou delegar
Temendo soar impostor
Decidiu assumir o risco
E escolheu melhor opção
Para cuidar do seu portão
Ao ver anjo encantador
Recente em seu aprisco

Desfilava ele a seu redor
Pregando com tal ardor
Numa retórica fascinante
Convincente, bom orador
De ânimo empreendedor.
Mas o demagogo farsante
Exalando ao ar exuberante
Cheiro de enxofre peculiar
Conseguiu a Deus ludibriar
Sem percebê-lo enganador

Foi o diabo tão bem-sucedido
A demonstrar engenhosidade
Que teve Deus a ingenuidade
De nomear o querubim caído
Do pedestal por improbidade
Esse barbudo caprino sabido
Um astuto chamado satanás
Que fez currículo falsificado
De político esperto e sagaz
Notório faltoso de mau juízo

Decidiu aos anjos consultar
(Embora evitassem contestar
Temendo perda de promoção
Na precedência pela benção
Ou passeios no divino andor)
Sabendo poderiam se opor
Àquele capaz de infernizar
Pois do abismo ressuscitado
Vinha das trevas ao paraíso
Para esse ofício complicado

Resultou dessa convocação
Arrepender-se da indicação
E preferiu Deus intervenção
Enviando imperioso decreto
Demitindo intruso malquisto
Da assembleia em objeção
Embora agravando por isto
O clima político tão incerto
E ao ter sua norma negada
Viu-se Ele numa enrascada

Houve de súbito explosão
De inesperada revolução
Urdida pelo espertalhão
Após artimanhas sem par
Usando os piores pendores
Conseguiu o rabudo evitar
Pelo suborno da oposição
Logo na primeira discussão
A adesão desses senhores
À ordem divina em questão

Atingiu satã o sórdido intento
Ao doar hóstias consagradas
De santos altares surripiadas
E o fez com tanta perfeição
Que sobrou a Deus rejeição
Por desprestígio à reputação
Ao testemunhar corrupção
Inusitada em seu firmamento
Foi assim seu triste momento
Em que lhe coube pior lição

No céu agora bem assentado
O notório Lúcifer enganador
Alçado como excelso senhor
Contra a direita conservadora
Viu-se pela esquerda apoiado
Em ruídos de asas a baterem
Almejando enfim receberem
Aqueles cargos privilegiados
Ambicionados com todo ardor
No séquito celeste do superior

Escolhido primeiro ministro
Concebeu ele plano sinistro
Para evitar viver submisso
Pois fez com tal balbúrdia
Aprovar tudo o que queria
E com medidas provisórias
Mesmo causando discórdias
Se pôs oposição ao divino
Proibindo cantassem hino
Louvando o Deus supremo

E audaz propôs o extremo
De constar em lei a decisão
Criando celestial legislação
Que no céu tudo se decidiria
Mesmo com angélica rejeição
Após discussão e votação
Até contra o que Deus queria
Esta primeira lei aprovada
Sob aplausos em trovoada
Gerou verdadeira convulsão

Sobre a entrada pelo portão
Tomou-se invulgar decisão
Nos costumes do céu então
E a nova constituição rezava
Que por ele não mais passava
Fanático de qualquer religião
Filas de enfadonhos cristãos
E freirinhas inconsequentes
Mais pregadores insolentes
Comandando os sacristãos

E criacionistas impertinentes
Passando a vida entediados
Aos altares como penitentes
Levando castiçais reluzentes
Sempre às hóstias devotados
Louvando santos crucificados
E os da inquisição legisladores
Mais aqueles ferozes cruzados
Que tendo vivido abençoados
Recebiam do divino só favores

Logo aprovaram a legislação
Com boa solução encontrada
À Divina Comédia passada
Ao abolirem inútil purgatório
Mais censura e interrogatório
Por anjos à porta de entrada.
Conseguiram ótimo remédio
Para se obter céu melhorado
Livrando-o de profundo tédio
Fazendo a eternidade tolerada

Com gente bem-humorada
Cultivando prazer e divertida
De felicidade plena incontida
Dando ao paraíso nova vida
Cheio de mentes transviadas
Almas tão bem capacitadas
A viverem no céu refugiadas
De suas lutas e tantas fadigas
Omitidas ou logo esquecidas
Que abaixo seguem listadas

Se da lista você foi omitido
Não se considere preterido
É culpa só de autor distraído
Não de deslize preconcebido
Será ao céu logo despachado
Pois de purgatório dispensado
Sendo assim recompensado
Por qualquer fortuito pecado
Inadvertidamente praticado
Ou apenas malsucedido

Sempre os melhores artistas
Os profissionais humoristas
Músicos e poetas sedutores
Atores, cantores e escritores
Provendo seus bons favores
Até descrentes impertinentes
Esquecidos, mas merecedores
Mais os boêmios encantadores
Esfaimados e desempregados
Junto com perdidos alienados

Sem-terra e os desamparados
Com multidão de arrependidos
Pelos pecados bem cometidos
Ou aqueles somente tentados
Sem-teto, imigrantes, drogados
Alcoólatras anônimos e sabidos
Revolucionários esquerdistas
Desaparecidos por militaristas
Torturados em ações esquisitas
E injustiçados nas trabalhistas

Filósofos, mesmo positivistas
E muitos desviados marxistas
Acusados como comunistas
Homossexuais e os ativistas
Mais mulheres estupradas
Sofredoras ou assediadas
E gostosas fêmeas perdidas
Impossível de serem punidas
Porque de amores providas
Passaram todas suas vidas

Mas praticando corrupção
Não se admitirá apelação
Sendo prontamente interditado
Por violar a nova constituição
Punindo-se cassado acusado
Mesmo com foro privilegiado
Decretado em aberta votação
Por juízes de primeira instância
Mas em qualquer circunstância
Submetidos a boa vigilância

Aboliu-se na nova legislação
O senado de puros arcanjos
E a participação dos santos
Esses deputados tão anjos
Pois tudo se faz em votação
Direta pelo voto da população
E para habilitar-se ao paraíso
Exclui-se obrigação de batismo
Nem se demanda tenha juízo
Mas bom humor é obrigação

Também ficou regulado
Ficar o inferno habilitado
Para os nazistas e fascistas
Mais policiais perseguidores
Além de notórios torturadores
E da fé, hipócritas pregadores.
Incluindo cabeças ruralistas
Mentalidades escravagistas
Todos pedófilos disfarçados
E pelos bispos acobertados
Em curto prazo aprovado
Foi previsível seu resultado
Acontecendo o esperado:
Fizeram-se muitos eventos
Contendo enorme multidão
Do planeta de pronto se via
Seus admiradores terrenos
Demonstrando só gratidão
E manifestação de galhardia
A servir a todos como lição

Em efusões de plena alegria
Que a tudo e todos contagia
Com notícias surpreendentes
Clamavam muito sorridentes
Em mares, terras, continentes
Nunca se viu uma tal euforia:
Fez-se revolução lá em cima!
Acabou enfim a ditadura divina!
Graças ao diabo, finalmente!
Nasceu nossa democracia!

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EDER C. R. QUINTÃO – É graduado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina desde 1959, doutor em Endocrinologia, comendador da Ordem do Mérito Científico pela Presidência da República do Brasil, livre-docente de clínica médica, professor, pesquisador, membro da Academia Brasileira de Ciências e avô orgulhoso de três netos. “São o mais importante feito do meu CV”, segundo ele. Escrever não entra no CV, é paixão.

 

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