CENAS DE BASTIDOR - C9REIS - LITERATURA E CULTURA - FIFTIES MAIS

Cenas de bastidor

Você pode se perguntar porque uma peça que tem sido louvada como uma homenagem ao mundo do Teatro pode lhe interessar ou a qualquer um de nós que não pertença a esse universo. Na verdade, a comédia dramática escrita pelo peruano Eduardo Adrianzén acontece nos bastidores da montagem de um espetáculo, mas trata das relações humanas, espelhadas nas complexas ligações que se estabelecem entre os artistas durante a montagem. Trata também do fracasso e do peso que ele sempre tem sobre o ser humano — e isso com certeza interessa à humanidade inteirinha.

Elenco da peça Azul Resplendor, em cartaz no teatro Renaissence, SP.
Elenco da peça Azul Resplendor, em cartaz no teatro Renaissance, SP.

Lenise Pinheiro, da Folha , classifica o espetáculo como uma comédia sem pudores que devassa a alma de personagens caricatos integrantes do elenco dessa peça dentro da peça. Em muitos deles, talvez em todos, a gente se reconhece mesmo não sendo ator.  O sucesso de Azul Resplendor tem muito mais a ver com o irônico desnudamento de vaidades e frustrações, clicadas nos bastidores do teatro, mas que acontecem em qualquer cenário do dia a dia. Acompanhe a trama.

Blanca Estela Ramírez, ex-atriz, já com seus 70 e tantos anos,  está afastada do teatro há três décadas, depois de uma carreira esplendorosa. Vive reclusa até que um ardoroso fã escreve um texto em homenagem a ela e, com recursos próprios, levanta a produção. Blanca volta à cena. A partir de então o enredo mostra a cruel complexidade que permeia as relações entre a equipe, provocada principalmente por um diretor egocêntrico e megalomaníaco, papel que coube a Dalton Vigh.

O fracasso aparece personificado em TIto Távio, vivido por Pedro Paulo Rangel. Colecionador de papéis insignificantes, esse ator frustrado insiste em acreditar no próprio talento e se ressente profundamente do anonimato. Além de intérprete inexpressivo, Tito é um dramaturgo de qualidade duvidosa. Com a morte da mãe, recebe uma herança e decide escrever e produzir uma peça para sua ídala.

Mais uma vez, porém, seu trabalho será menosprezado, distorcido e quase aniquilado pelo arrogante diretor contratado por ele mesmo como diretor. Humilhação, jogo de poder, mentiras, crueldades, dor — a trama mistura todos esses elementos, conferindo à obra, conduzida por Renato Borghi, um valor universal.

Se ainda não convenci você a comprar sua entrada, aqui vai um argumento inelutável. Na trama, Blanca Estela é interpretada por Eva Wilma.  Aos 80 anos, uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, ela tem pouco a ver com a personagem, mas entende muito bem dos scripts do teatro e da vida. Aposto que Eva não carrega muitas desilusões (ou soube transforma-las em aprendizagem)  e consegue desfrutar do sucesso como alimento para  viver uma maturidade mais feliz e produtiva. O desempenho desse atriz, com 60 anos de carreira, merece o seu aplauso.

Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233, tel. 3069-2286. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ R$ 80. Até 6/10. 

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