Este artigo é parte do Clube dos Escritores

BABAU! Tragédia da irreversibilidade, por Sergio Zlotnic


 

 

I – Eis um manual/mapa/esboço rumo às obras que se criam sozinhas: acrescentar palavras aleatórias, surgidas por sua livre e espontânea vontade, por escorregões ou erros, derrapagens, falta de memória ou pura sorte [ou azar]. Pegar carona no acaso. Nenhuma culpa. Seguir em frente.

II – Um dia, pela manhã, tive aqui uma ideia. Apareceu-me como um lampejo. Era a solução de muitos males. Resolvia tudo para a humanidade. Rapidamente, tomei nota do relevante achado, sobre a mesinha lateral, vizinha à poltrona onde sento pra ler jornal. Porém, como eu tivesse a mão esquerda ocupada com uma caneca de café, à medida que escrevia com a mão direita, o papel andava sozinho, sem nada que o brecasse, num percurso cheio de autonomia, que alterava totalmente a caligrafia – a tal ponto que eu mesmo não seria capaz de decifrar aquilo que escrevera.

As letras se misturavam, as palavras capotavam, irreconhecíveis, como num sonho do qual tentássemos lembrar. Erros involuntários. Garranchos. Rabiscos. Garatujas. Novas palavras, muitas delas ilegíveis. Algumas engraçadas. Outras, melhores do que as que haviam sido originalmente escolhidas…

Tentei ser rápido no resgate dessas palavras extraviadas, senão eu as teria perdido totalmente. Minha memória não reteria nada da revelação por mais de uma fração de segundos…

De fato, não retive! E a verdade escoou pelo ralo de um buraco negro. Puf!

Urgência: perde-se um grande achado todos os dias… Porém, nesse caso particular, depois de exaustivo estudo, excepcionalmente, logrei recuperar fragmentos da equação! Essências diminutas e parciais de sabedoria concentrada.

Eis como procedi: a) abri mão de buscar a verdade maior (com sofrimento e dor); b) troquei alguns termos – nos casos justamente em que o acidente (por sua livre e espontânea vontade) pareceu ter produzido algo melhor do que de início havia sido concebido; c) fui, desse modo, receptivo à presença de um vulto estrangeiro que se insinuou, pairando, qual mosca, por sobre a minha cabeça; d) reconstruí um pedaço manco da ideia original. Pois: antes um pássaro na mão do que dois voando. Augúrio!

Abaixo, o texto convalescente de palavras flageladas.

III – Tratado sobre os erros.

1- Tragédia da irreversibilidade…

No passado, depois que despachávamos uma carta pelo correio, babau! Mas, antes disso, podíamos rever rever rever. Corrigir. Modificar. Cancelar. Desistir. Abortar. Não enviar.

Só depois do despacho é que não havia mais conserto. Porém, caminhar até o correio já era um grande quintal de ensaios, em que podíamos desistir da empreitada… Arrependimento tinha lugar! Em último caso, sempre nos sobrava a chance de abater o carteiro a tiros.

2- O drama começa com as secretárias eletrônicas…

Telefonamos. Atende a secretária (eletrônica). Deixamos um recado. A voz sai rouca. Um pigarro. Gaguejamos. Sai-nos da boca uma bobagem e um cuspe. Não adianta lamentar. A perda está imediatamente concretizada! Sem piedade. Está gravado. Como tatuagem na pedra. Não tem mais volta. Inês é morta! Humilhação!

Não há infelizmente o dispositivo ‘desgravar-mensagem-gravada’.

Email, torpedo, WhatsApp e quitais seguem pela mesma trilha: está feito. E nada mais resta pra consolar ou pra cancelar o envio. O tempo não volta atrás. Não há mais providências a serem tomadas. O leite está derramado. O mar não tem cabelo. Oh, desgraça!

3- Minto. Há recursos. Alguns. Poucos. E pouco eficazes. Por exemplo, o famoso asterisco: * !

Erramos uma palavra que digitamos e mandamos pelo WhatsApp. Recorremos ao * – que, se não apaga o erro cometido, pelo menos relativiza o deslize.

Ele é moderno. Talvez alguns não o conheçam. Então, explico.

Escrevemos: “Tudo de bom para a sua irmã”. Enviamos. Em seguida, embaixo, completamos: *seu irmão.

Pronto. Ele não tem irmã. Entretanto, tem irmão. Atenuamos a derrapagem.

Outro exemplo. Nós vai ver um filme. *nós vamos. A língua agradece.

Mais um exemplo: vigarista, eu te odeio. *boa noite, eu te amo.

Podemos também colocar a culpa por todos os erros no autocorretor. Jogamos a responsabilidade nele! E evocamos esse tal asterisco! Trata-se de um tipo de errata: livro impresso, frase errada? Dá-lhe errata! Não é o melhor dos mundos, entretanto, só o criador é perfeita. *perfeito. [**perfeite].

4- A propósito, justamente, o autocorretor! Não é uma piada? Ele é uma espécie de deus que pensa que sabe o que queremos dizer. Interfere. Nos acentos, nas palavras. Onipresente.

5- Parêntese ilustrativo. Escrevi um relatório recentemente. Perdão pela aridez do tema. Serei breve. A matéria tinha a ver com psicanálise. E dizia respeito a mães “fálicas” (indispostas em se deixarem ver “castradas”). Enfim, assunto específico, do qual se pode discordar – e não vale a pena entrar aqui em detalhes.

Porém, o que importa: eu tinha de me referir à “falicidade” dessas mães (fálicas).

E a cada vez – suprema ironia – o autocorretor alterava esse termo; e dizia: a “felicidade” das mães.

[pausa para respiração].

Cá entre nós. Não há felicidade para as mães (nem na psicanálise, nem fora dela) – é disso que o autocorretor não sabe. Fecho parêntese.

6- Novos tempos. Novas palavras. Algumas criadas por distração. Outras, pela máquina. Atos falhos que revelam um inconsciente também habitando o núcleo dos dispositivos da informática.

Donde: robô = externalização da subjetividade.

7- À guisa de conclusão. Avanço mais um centímetro…

Vejamos! Quanto mais decai o homem (fisicamente), mais seus órgãos migram para fora.

Pobre de quem vai parar numa UTI. Pior se for de um bom hospital. Quando nada mais funciona… como proceder?

Respira-se entubado. O que equivale a ter um pulmão externo.

Hemodiálise (o aparelho às vezes parece um piano de cauda) = rim externo.

O coração não bate? Marca passo externo (sim, existe…).

Parafernália de geringonças.

Mesmo assim, com sorte, morre-se. Grande feito.

As máquinas escreveriam de modo diferente: *viveu.

Morte, palavra proibida de ser conjugada… Tragédia da irreversibilidade.

8 – Observação:

O último órgão a migrar pra fora será a alma…

(*já está migrando; **já está migrada?!).

IV – Embora o esboço aqui reconstituído não cure a humanidade, ele laça (senão um grande búfalo) um pequeno touro… Ou uma gazelinha?

 

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SERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

 

PEDRO CIPIS

Ilustrador, artista gráfico – https://pedrocipis.carbonmade.com/

Contato: [email protected]

3 comments

  1. Zlotzz, nossa contemporaneidade vista por você é feroz e cruel, mas permeada pela inteligência, humor e ironia.
    Observação de pequenos procedimentos habituais, com seu olhar, tornam-se verdadeiras joias de non sense, põem a nu a nossa bobagem cotidiana.
    As palavras perdidas, fugidas, espaventadas que se transformam em palavras melhores que as originais, é um achado!
    O inconsciente da máquina, que vive a cometer lapsos, ou então o corretor, que imagina que sabe o que queremos escrever.
    Nem mesmo nós sabemos!

    Seu texto: só rindo e aplaudindo.
    Adorei a ilustração!

  2. Acabo de saber que agora pelo wapp pode-se deletar msgs escritas ou faladas [áudios] – desde que o destinatário ainda a tenha escutado. Que bom! Acho que eles leram meu texto!

  3. Sergio,

    Sou muito lenta aos contatos e aderências à grupos. Lenta em ler e comunicar. Nao faz parte do
    meu dia a dia.” Sou de Lua,” como dizem! O que acontece em dezembro vou ver só em janeiro ou nunca mais e ai vejo se me ligo ou nao. Dou-me o tempo da ignorância dos acontecidos. Preciso de espaço temporal para me incluir.
    Assim dito, este seu texto talvez nao o tivesse apreciado tanto quando hoje, re-lendo-o. Releio Sergio, nao o texto em si. Sei que nao vou esquece-lo ( o texto) e sobretudo saber onde achá-lo novamente.
    Convivemos sem escapatória – a nao ser por desinteresse pela realidade a qual somos obrigados a
    nos adaptar. questão de sobrevivência pacifica. Nao dá para voltar atrás! Escrever, está escrito. Impresso ou na eletrônica.
    O papel escorrega sempre na memória e aparecem adesões ao texto só captados pela alma (nao pela tinta – oi ai o parentese)… que traduz o sentimento em uma palavra bem colocada e precisa, nao pela tinta. * * Veja como nao foi necessário o parentese para lhe dizer que sua alma esteve muito bem colocada nesse seu texto. basta um asterisco.
    Eram necessários o parenteses e o asterisco? Nao!
    Foi assim que apreendi – e aprendi – ( necessário o trait de union? Nao!) com seu texto. Obrigada.

    nota: Tento moldar a perfeição da realidade!

    carinho
    B

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