Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Bob Accioly,
por Eliane Accioly






Sim, cachorro tem nome e sobrenome. Bob vivia na Casa da Patrícia com Dona Mariinha, viúva do Brasil Accioly, e os três filhos dela, Eliane, Heloisa e o Brasil Jr. Escolheu, como dona, Eliane, a mais velha entre os irmãos. Bob vivia lá, dormia no corredor, diante da porta do quarto de sua dona. Mas era um bicho rueiro. Saía por conta própria, o que morar em cidade do interior lhe permitia. Mas, engraçado, a dona punha o bico pra fora de casa, e Bob já estava ali, à sua espera. Conforme a direção que ela pegava, Bob saía correndo à frente, e a esperava na casa da Vovó Lelé. Ou na casa da Janice. Ou na casa da Vovó Sinhá. Era bem vindo, até entre os gatos da Vovó Lelé. Bob tinha namoradas pela cidade. Uma delas, a cachorra do dono da funerária. Um dia Bob saiu com Eliane e pegou a direção da casa de Dona Sinhá. Sim, ele chamava as avós de Dona, sabendo do seu lugar. Seu Moises, então! O avô dos meninos, para Bob, era o Seu Moises, com o maior respeito e admiração. Seu Moises sempre olhava Bob até o fundo de sua alma, mas não fazia festas. Bob falava com os olhos.

Um dia Bob pegou o rumo da casa de Dona Sinhá e do seu Moises, o farmacêutico. De repente, vem um cachorro enorme, pastor alemão, com cara de pouquíssimos amigos! Eliane gelou! E Bob provocou o cachorro: au! Au! Au!. A dona se encolheu. O que poderia fazer com aquele monstrengo aterrador? Bob saiu correndo rente à parede das casas da rua. O bichão atrás dele, correndo também rente às paredes. Queria pegar Bob com a bocarra e os dentes. Mas, não é que o cachorrão tropeça nos próprios pés? E cai estatelado? Depois levanta, faz a volta e retorna pela rua, passando por Eliane e olhando para ela de soslaio, com olhos bastante envergonhados. Eliane o olhou também de soslaio, afinal, o que ela conhece de alma de cachorro? Não sabendo direito nem da dela?  Bob, porém, segue adiante, elegante, cabeça e rabo bem levantados.

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ELIANE ACCIOLY – É psicanalista e artista. “Aprendiz. Vivo os intervalos. Viver é surpreendente. Em certa pequena medida criamos nossas vidas. Não posso mudar o mundo, mas parcelas da vida e do mundo sim.”

3 comments

  1. todas histórias sobre cachorros me eternecem. Lola já foi cachorra igual a Bob. Hoje manca muito e tem pouco tempo de vida. Gostei da coragem do Bob e da covardia do cachorrão! Geralmente é assim mesmo que acontece entre gentes. Os que tem alma e os que só tem vaidade por sua beleza. Latem mas nao mordem!

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