Este artigo é parte do Clube dos Escritores a bota - sylvia loeb - fifties mais

A Bota

O que leva uma pessoa a perder ou a largar um pé de sapato no  meio  da  rua?  Largado  ali,  muitas  vezes  jogado  nos  fios  de eletricidade, um pé de tênis, um sapato de cadarços que se enrola nos fios elétricos,  estranhos seres enforcados ao sabor do vento.

 Imagino que seja um gesto alegre, talvez ajudado por algum aditivo  alcoólico,  mas  talvez  seja  também um  gesto desesperado. Já que você não me quer, ou já que não dou certo na vida, ou já que  perdi o  emprego,  ou já  que  perdi  mais  uma  vez no jogo  e  aí vai o sapato para os ares.

 Esse gesto deve acontecer  à noite, nunca vi alguém durante o dia dedicado a este procedimento.

Ontem  encontrei  uma  bota.  Negra,  de  saltos  altos,  zíper no lado de dentro, um pequeno laço em couro da mesma cor, do lado de  fora.  Não  estava  pendurada  nos  fios,  achava-secaída  no meio da calçada. Meu desejo imediato foi tirá-la de lá para que ninguém  pisasse  nela.  Refreei  o  gesto,  por  demais  ridículo.  Mas  não refreei os pensamentos.

Bota  de  mulher,  usada  por  uma  mulher,  acho  eu.  Mulher pequena,  de  pés  pequenos.  O  que  a  teria  levado  a  tirar  a  bota  e deixá-la  no  meio  da  calçada?  Uma  briga  passional?  Um  homem violento  ou  desesperado,  chacoalhando  a  mulher  a  ponto  de  ela perder a bota?

Não  consigo  visualizar  a  cena,  é  pouco  convincente, difícil de imaginar a não ser que ela  fosse  muito magrinha, a bota meio grande   teria   escorregado   da   perna.   E   depois?   O   que   teria acontecido?  Ela  ficou  chorando,  ele  foi-se  embora  e  ela  no aturdimento  nem  reparou  que  tinha  perdido  a  bota,  foi  pra  casa com um pé descalço, mancando? Triste, muito triste essa cena.

Poderia   ser   de   um   travesti,   pequeno   também,   dado   o tamanho da bota, número 36, no máximo 37. Aí a cena pode ficar mais  alegre.  Ele,  no  auge  da  fantasia  de  mulher  louca,  faz  um streap tease e joga a bota para o ar. Gargalha e vai embora descalço,  a  outra  bota  na  mão.  Deixar  um  pé  na  calçada,  sinal  de despojamento  com  os  padrões  sociais,  também  de  pouco  caso com  os  bens  materiais,  embora  seja  necessitado.  Um  gesto  político. Ou talvez, uma versão urbana da Cinderela.

Esqueci  do  assunto  e  qual  não  foi  minha  surpresa  ao  me deparar com ela no dia seguinte, só que agora, recolhida no canto de um muro, abrigada de olhares indiscretos.

Alguém  mais  piedoso  do  que  eu  recolheu  e  deu  guarida  à bota perdida.

Ontem  encontrei  um  par  de  sapatos  de  homem.  Estavam arrumadinhos, um ao lado do outro, na esquina da praça, perto de uma  lixeira.  Novamente  deu-me  vontade  de  pegá-los,  apertá-los contra mim e dizer Calma, calma, tudo vai acabar bem… Sapatos bem conservados, de pessoa cuidadosa, talvez de um crente. Mas não  combina  um  crente  deixar  os  sapatos  na  rua  de  madrugada!

No  dia  seguinte  os  sapatos  estavam  lá,  na  mesma  posição, comportados e novamente me inspiraram ternura.

No terceiro dia, já desarrumados, um para cada lado, sapatos de bêbado. Alguém chutou, as pessoas têm pouco respeito com o sentimento dos outros, quase um gesto de violação.

Depois  eles  sumiram…  Ou  o  lixeiro   levou,  ou  alguém necessitado apropriou-se de um bem disponível, ou o dono voltou para resgatá-los.

Para ter certeza, precisaria ter passado o dia na tocaia.

Sylvia Loeb, psicanalista, escritoraSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com , acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb ou escreva para o email [email protected]

s, quase um gesto de viol

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