Este artigo é parte do Clube dos Escritores

CABAL [não é uma pergunta…],
por Sergio Zlotnic

 

 

 

PREÂMBULO – Do processo, guardei impressões – sem mostrar tantas coisas [como sempre acontece] nem mesmo a ele. Entretanto, vale dizer, o não verbal se transmite [especialmente nestas situações].

Então, me lembrei do sonho que tive antes do primeiro encontro – do qual esquecera completamente. Isso, mais que tudo, tinha importância. Tanto o sonho, quanto o esquecimento.

SONHO [cautela] – Eu deveria passar um fax para ele [garranchos]. Não! Desculpe. Vice-versa. Ele ia me passar um fax. Porém, não dá certo. Sim, tudo ok, no início. Do lado de cá, enxergo bem, começa a sair o papel da máquina. Mas, de repente, não prospera mais! O fax engasga. Tudo enguiça. Aparece uma mensagem ali na tampa: ‘Paper jammed’ [sic]! Papel amassado? [não é uma pergunta].

Ligo pra ele em seguida [de outro telefone]. Aviso que não foi bem sucedida a operação: o documento não vinga.

Nesse ponto, sou alertado: “observe bem” [diz ele]. Obedeço. Olho melhor.

Então, algo notável: vejo que – sim – o papel vem saindo da máquina. Porém, muito lentamente. Amassado e amarelado. Antigo. É a pele seca de um animal. De súbito, sou atravessado por algo [talvez calafrio?…].

Para meu espanto, percebo que é a “Torá” que está chegando [o Velho Testamento]. Tão grosso o pergaminho, que custa passar pelo vão. Ele se esforça e se espreme -, úmido, tentando sair, sem ar, esmagado… Quase vivo.

Poderia ser um nascimento.

Sei que se trata de uma antecipação, embora não possa explicar.

De minha boca, sai uma pergunta [que na hora nem compreendo]: mas você está me mandando o original??

Ele não responde. E desliga.

Acordo assustado.

Ao meu lado, ninguém…

OBSERVAÇÃO – Antes mesmo de ser, a antecipação de susto [como a que tive] é susto.

PS- minha questão dirigida a ele, noto agora, pela segunda vez, embora tomasse essa forma, não era pergunta – e sim afirmação.

FIM

Fragmento [com pequenas alterações] do texto mais longo de abril de 2018 – publicado em: http://derivaderiva.com/transparencias/

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SERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

4 comments

  1. Cabal, absolutamente cabal, tudo antecipadamente cabal, o susto antecipado, que já é susto.
    Premonição é igual à antecipação? E intuição? A gente sabe antes de saber?

  2. foi um sonho de início de análise – em 2003. descobri lá, tudo o que eu já sabia! do outro lado da linha, me mandando o original, o analista. frequente seu divã por 7 anos [como José, da Bíblia, que trabalhou outros 7 anos para ter a mulher que desejou!].

    1. Li no dicionário: cabal “que é ou está como deve ser”. O susto primordial bíblico, “antes mesmo de ser, a antecipação de susto”. O que descobriu na análise, mas mais do que mistério da análise, é mistério de sermos. Bela e intrigante escrita

    2. errata para o comentário de cima [meu mesmo!]. *frequentei seu divã por 7 anos…

      do jeito que ficou ‘frequente seu divã por 7 anos’, pode dar a impressão de que eu esteja fazendo propaganda do analista – mas pra isso teria de dar nome, telefone, endereço…

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