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Carta para Alice

Alice,

Tenho tantas saudades de você.

Quarenta e cinco anos de casamento. Uma vida inteira juntos, uma decisão de amor e de vontade.

Há quatro anos você não está mais ao meu lado; deprimi, queria ir te encontrar, os filhos fizeram o possível, os amigos mais chegados (os que sobraram ), também, mas a depressão e a tristeza não me deixavam viver.

Posso ver agora com mais clareza o que foi nossa vida: dois jovens, belos, corajosos, nada nos detinha, nem falta de dinheiro, nem problemas de saúde, nem nossos objetivos muito além do razoável: muitos filhos, realização profissional para ambos, saúde, poder, crença no futuro. Religião nunca faltou, o que nos unia era o amor e o desejo de ficarmos juntos. Os dois primeiros filhos, grande alegria apesar das dificuldades financeiras, do barulho que faziam, das noites mal dormidas. A vida sexual ativa e satisfatória era o cimento de nosso relacionamento, lugar onde realizávamos fantasias que não cabiam na sala de visitas.

Quando João nasceu, você ficou um pouco diferente; a criança linda, forte e exigente começou a tirar você de mim; não queria ter ciúmes, como poderia ter ciúmes de meu filho? Mas sentia você mais distante, já muito ocupada com três crianças e uma quarta a caminho. Beleza nunca lhe faltou Alice, a atração que eu tinha por você só fazia aumentar com o passar do tempo. Foi ficando madura, mulher desabrochada na flor da idade. Mas eu percebia que não atraía sua atenção do mesmo jeito; ou por causa dos filhos, ou por causa de João, ou porque já tinha se cansado de mim, não sei, nunca falamos sobre isso.

Talvez agora que você não esteja mais aqui, possamos falar. Sempre conversamos de tudo, ou de quase tudo. A cama era o lugar privilegiado. Depois do amor, nossos corações ficavam mais ternos. O quarto trancado, as crianças do lado de fora, a intimidade garantida, embora tenha sentido algumas vezes uma angústia que não saberia dizer o porquê, embora sentisse em você uma distância intransponível. Por causa disso talvez, eu precisava saber se poderia, se seria capaz de atrair outra mulher. Sua distração me dava angústia, disso não podíamos conversar. Jamais vou saber o que lhe acontecia, mas agora posso contar o que me aconteceu. Tive outra mulher por quatro anos; acho que nunca cheguei a amá-la, pois estava ocupado por você, Alice. Mas tive a certeza que outra mulher podia me amar, me apreciar como homem. Vivi com ela coisas lindas, porém jamais com a intensidade que tínhamos. Imagino que tenha me tornado melhor amante para você depois que conheci a outra. Isso trouxe você de volta. Mistérios.

Nunca tive culpa deste outro relacionamento, pois ficamos mais unidos, inclusive mais tolerantes. Aprendi a respeitar sua enxaquecas, que imaginei serem um modo de ter mais tempo para você; minha intensidade a cansava. E você também aprendeu a respeitar meus momentos de solidão, as horas infindáveis que passava trancado escrevendo. Pensamos em morar em casas separadas depois que os filhos cresceram, lembra-se? Mas conseguimos salvaguardar nossas solidões criativas no mesmo espaço, até na mesma cama. Depois de tantos anos, posso dizer com certeza que, no nosso caso, morarmos junto, na mesma casa, dermicamente próximos foi a solução. E cama, uma e só uma.

Nossa vida foi um mar de rosas? Não,não foi.

Algumas vezes quis me separar, respirar outros ares, conhecer outros corpos, viver novas aventuras. A convivência foi difícil , o trabalho que tivemos para construir nosso casamento foi intenso. Sua enxaquecas eram terríveis, você se afastava de mim no quarto escuro, nos longos silêncios e olhos trancados; eu me vingava de você trabalhando noites e noites no escritório igualmente trancado.

Mas de algum modo superamos, chegamos a um ponto de ajuste amoroso, onde o prazer de estar junto foi além da pele mais opaca, além de nossas impossibilidades físicas.

Conheci há algum tempo uma mulher com quem estou saindo; posso finalmente pensar e sentir vontade do calor de outro corpo. Pensamos em morar juntos.

Sabe que há uma lei que impede o casamento do idoso? Com isso, fico protegido de formalidades que a esta altura não fazem mais sentido e poderemos então, Sandra e eu, pensar em viver juntos por uma simples e singela vontade de compartilhar nossas vidas.

Queria contar isso a você, querida Alice.

Antonio.

Sylvia LoebSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com , acesse sua página no Facebook:
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