Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Chuva forte II,
por Léo Forte

 

 

 

Deitado em um barco que flutuava em água calma, sem horizonte, olhava um céu azul turquesa brilhante e aquela música que repetia e repetia, ”moça triste de chuva, cabelos de água mãos de sereno”.

De repente, tudo mudou, o céu escureceu, a água se agitou com violência, e, enquanto o barco balançava uma voz chamava, repetindo: acorda, acorda, Lélo!

– Hum…hum…Virou-se assustado sem saber bem onde estava. A dor nas costas e o braço dormente lhe trouxeram a consciência do sofá do seu escritório. Sentou-se com os cotovelos no joelho, esfregou o rosto para mais acordar e olhou para a linda mulher em pé a sua frente, que foi logo dizendo:

– Você dormiu pesado mais de três horas, nem roncou. Também, trabalhou sem parar desde ontem. Contei vinte e quatro horas direto e nem comeu direito. Por que esse exagero?

– Você sabe tão bem quanto eu que a campanha estava uma merda. Disse, num grunhido, entre bocejos. – Dormiria mais uns dois dias. Que horas são?

– São quatro e meia. O cliente e sua turma estão pra chegar. Vá pro seu banheiro se arrumar, que eu vou pegar seu terno reserva, você está um lixo, todo amassado. Já pensou pra onde vai a imagem do elegante publicitário Lélo se te pegam assim todo estropiado?

– Certo, já estou indo. Como está a apresentação? Tudo pronto?

– Como sempre. Tudo montado e preparado na sala de reuniões. Só falta você virar gente e o cliente chegar.

– Ótimo, disse, se levantando, cansado. Bem que o cavalo podia falar.

– Como? O que foi que disse?

– Bobagem, um amigo costumava dizer isso quando não queria que uma coisa marcada acontecesse. Deixa pra lá. Está chovendo?

– Não está ouvindo? O mundo está caindo. Acho que o cliente vai atrasar. Você não vai, como de outras vezes, pegar aquela capa e chapéu ridículos e sair correndo na chuva, vai?

– Não vou não, isso passou… faz tempo.

O telefone tocou, eles se olharam indecisos. Ela disse:

– É o seu direto. Vai atender?

– Não, atende você. Seja quem for não posso falar agora. Diga que estou na “criação”, terminando uma campanha, no banheiro, invente o que  quiser.

Parou a meio caminho e ficou ouvindo.

– Alô! Boa tarde, Senhor Olinto. É sim, é o direto do Lélo. Aqui é Mitchú, a assistente. Ele não pode atender agora, está na criação, dando uma última olhada na campanha. Se o senhor não se importar pode falar comigo que eu transmito o recado. Como? Entendo, tem razão. Com essa chuva o trânsito está todo travado. Pode deixar eu aviso.             Amanhã? Tudo bem, mas só depois das 14 horas. Estou vendo aqui na agenda…ele estará em reunião toda manhã. Então está marcado para a tarde. Desligou.

– O que foi?

– Ora, você não ouviu? O cliente cancelou a reunião de hoje e marcamos para amanhã as duas.

– E essa história de reunião cedo?

– Ora, inventei, você adora levantar tarde e precisa dormir bastante para se recuperar.

– Você é o máximo! É por isso que te amo. Me acorda às sete e meia para irmos jantar, disse, se jogando no sofá.

Enfiou a cabeça entre as almofada, tentando recuperar o sonho anterior o barco, o céu, água. A música veio vindo – moça triste da chuva, cabelos de… , junto com a imagem de uma mulher nua, impressa como um carimbo em uma vidraça molhada.

Antes de adormecer ainda teve tempo de dizer:

– Mitchú… o cavalo falou.

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LEONARDO FORTE (LÉO) – 73 anos, economista, publicitário aposentado, casado, dois filhos e uma neta. Apaixonado por cinema, literatura e música, escreve contos e promove encontros para ensino de jazz.

 

 

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