Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Clamor,
por Sylvia Loeb


 

 

Me alimento da terra. Terra podre, cheia de mortos, cheia de vida, revirada,  plantada, queimada.

Recebo água que cai do céu, que vem das profundezas das fissuras
da crosta terrestre. Água pura, salobra, em cascata. Água de chuva, de granizo, de neve.
Água de inundação.

Abrigo a sombra, a noite, a madrugada, o dia. Abrigo cobras, pássaros,
formigas, besouros, aranhas, escorpiões, ninhos. Abrigo os vermes que
habitam os homens.
Abrigo os homens.

Tenho cicatrizes.
Amantes vêm e me talham. Cachorros urinam em mim. Bêbados aqui
vomitam, cagam e dormem. Um já se suicidou. Pendurou-se numa corda.
Outro bateu sua cabeça em meu corpo. Até mais não poder.
Um carro, mais de um, tentou me derrubar.

Minhas raízes tremem de horror tentando segurar a vida que corre em mim.
Me alimento da terra.
Até quando?

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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