#contesuahistória – Abigail, por Maria Rosa von Horn

No início de agosto, o Fifties+ lançou a campanha #contesuahistória, pedindo que seus leitores compartilhassem suas histórias de amor ou de superação, relatos sobre família, trabalho, sonhos, viagens, ou registros sobre qualquer outro daqueles inúmeros momentos da vida da gente que, de fato, valem uma história.

Após o sucesso de “Aquele vestido verde”, de Maria Cristina Santos, agora a leitora Maria Rosa von Horn contou a história de Abigail, uma mulher inteligente e sedutora, mas com cara de fuinha. Feia… muito feia! Confira a história de nossa fifties+:

ABIGAIL
Sempre fui feia. Pertenço a uma família na qual as mulheres são reconhecidamente inteligentes, alegres, divertidas, gentis, mas todas feias de doer. Somos três irmãs, Abelarda, Abília e eu. Para piorar, papai resolveu nos “presentear” com os nomes das antepassadas dele, tias e avó. Por falar nele, foi a pessoa mais bem-humorada que conheci. Quanto à mamãe, posso defini-la como uma mulher elétrica, capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Dotada de uma cultura inusitada para as mulheres da época, gostava de debater questões existenciais e políticas nas reuniões de família e entre amigos. Nestas horas, enquanto as mulheres ficavam na cozinha para falar de filhos e de temas femininos, ela escapava e se juntava ao papai e aos outros maridos para debater assuntos “mais interessantes”, como dizia.

Apesar desse lado intelectual, era também ótima mãe e dona de casa e, ainda, esposa apaixonada.
Para mim, ambos formavam o exemplo de casal perfeito e feliz. Contudo, como as filhas, mamãe jamais foi considerada uma mulher bonita.
Sou baixinha, nariguda, meus olhos castanhos são pequenos e fundos. O cabelo tem vida própria, rebela-se nos dias chuvosos e acorda em pé todas as manhãs. Tenho assumida cara de fuinha.
Abelarda, minha irmã mais velha, saiu grandona como papai, vive em dieta eterna desde que a conheço por gente. Já Abília é pequena como eu, mas, coitada, o rostinho é feio, feio. Somos muito unidas, verdadeiras amigas e irmãs confidentes.

Nossa infância foi um tempo feliz, sem preocupações com a aparência, mas, com a chegada da adolescência, a coisa pegou. As pessoas nos olhavam de atravessado e comentavam com mamãe:
“Gertrudes, quando as meninas vão começar a namorar? Se não buscarem logo um marido ficam para titias…”. Mamãe dava de ombros, nunca ligou para a opinião alheia, embora, em nosso tempo, fosse quase obrigatório que uma moça seguisse o ritual: namorar, noivar, casar e ter filhos.
Minhas irmãs tentavam se enquadrar aos padrões da época e sofriam. Frequentavam os bailinhos de escola, que eram de uma chatice sem tamanho. Íamos as três e tomávamos o famoso e previsível chá de cadeira; raramente nos tiravam para dançar ou, quando muito, éramos a última opção. Fui umas duas vezes e não quis mais saber de voltar, não tinha paciência de ter que ser escolhida, então preferia ficar tranquila em casa. Já Abelarda e Abília não se davam por vencidas, queriam arranjar um namorado a qualquer custo. Todo final de semana era a mesma tortura. Encomendavam roupas na modista, depois passavam horas fazendo as unhas e domando os cabelos com touca, uma espécie de alisamento caseiro da época.

Para completar o quadro, nossa linda prima Ângela chegava para acompanhá-las ao baile sempre em um vestido fantástico. Gostava de exibir-se contando “sobre os inúmeros garotos que estavam caídos por ela”, “que dançou com este e com aquele”, “que ganhou o concurso de miss”, “que diziam que era a cara da mocinha das revistas de fotonovelas”. Minhas irmãs voltavam desoladas dos malditos bailinhos. Abelarda, chorosa, comentava: “Quando um homem mostrar interesse por mim devo fugir, porque vai ser assalto”. Eram muito exageradas. No fundo, me sentia uma estranha naquele mundinho de sonhos e príncipes delas, acho que neste ponto era parecida com mamãe.

Aos 18, prestei vestibular para a faculdade de Farmácia e me classifiquei entre os primeiros colocados na Universidade de São Paulo (USP). Foi ali que encontrei minha turma. Libertei meu lado meio selvagem. Era um mundo onde ser “feio” até conferia certo status. Todos os meus amigos eram “estranhos”: barbudos, cabeludos, malvestidos; demonstravam, de certa forma, o desprezo pelas coisas mundanas. Assumi, feliz, meu lado bicho-grilo. Participava de todas as rebeliões da universidade, quase cheguei a ser presa, fumava cigarro e baseado. Além de estudar Farmácia, aprofundava-me nos estudos de Política e Filosofia. Tive alguns namoricos passageiros, beijei um e outro, mas nada além. Apesar de toda a loucura, era no fundo antiquada, queria me manter intacta para o homem certo que eu escolhesse.

Aos 24, já estava formada e, com uma turma de amigos, fiz a travessia até a Bolívia com Trem da Morte. Vivi momentos de puro êxtase, alucinei, vi discos voadores, fiz a grande viagem interior. No ano seguinte, parti de mochila para a Holanda. Lá fui garçonete, ajudante de cozinha e faxineira, e continuei na busca por mim mesma. Como trabalhei em diversos restaurantes, aprendi muito sobre o preparo de bons pratos. Sempre fui doida por comida e, como Abelarda, tive que me policiar a vida inteira para não ficar com a aparência de um barril de cerveja.
Quando, anos depois, retornei ao Brasil, minhas irmãs já estavam casadas, ambas com homens lindos e apaixonados. Elas conseguiram adequar-se aos padrões com que tanto haviam sonhado. Eram mulheres felizes. Nem poderia ser diferente, ambas divertidas, engraçadas, ótimas companheiras e ainda cozinhavam muito bem. Já nossa bela e sensual prima Ângela escolheu tanto que acabou sozinha.

E eu, aos 27, havia ficado literalmente para titia. Resolvi trabalhar e me assentar por um tempo, pretendia conseguir um bom dinheiro para, depois, partir novamente pelo mundo. Consegui uma boa colocação em uma grande empresa do ramo farmacêutico. No entanto, para meu total desespero, tive de abandonar o visual selvagem e me tornar mais urbana. Passei a usar saia e blusa, salto alto, e cortei meus cabelos bem rente, para não ficar com cara de mulher das cavernas.

Apesar daquele mundo rotineiro não ter nada a ver comigo, precisava continuar ali; o salário acima de minhas expectativas me obrigava a aguentar firme. Felizmente, não tive problemas em me adaptar. Sou extrovertida e divertida. Como papai, foco no lado positivo de tudo e raramente me estresso. Os homens achavam graça em meus modos e não me viam como uma presa, nem as mulheres, como uma ameaça.

A contratação do novo advogado na empresa causou furor entre as moçoilas. Sergio era boa-pinta, bom partido, lindo de morrer, dotado de um sorriso encantador. No início, flertava com todas, saía com uma e outra, depois ficou mais recatado e surgiu com uma loira estonteante que apresentou como sua noiva. Até então, não notara minha existência. Mas eu estava decidida desde o primeiro dia em que o vira que ele seria meu para sempre.
Armei o bote, fiz amizade com as meninas que haviam saído com ele, busquei saber suas preferências. Certa vez a noiva apareceu para buscá-lo: foi a deixa, aproveitei para aproximar-me, sorridente, e puxar conversa com ela. No dia seguinte, a mesma coisa. Fomos tomar café juntas enquanto ela aguardava a “minha” caça. Fazer amizade com Sueli foi mais fácil do que imaginara.

Ela me confidenciava que morria de ciúmes do Sergio e sofria por saber que ele – como a maioria dos homens – apreciava apenas um belo físico feminino e o resto, aparentemente, não interessava. Dizia-me que, depois do sexo, ele dormia ou mostrava-se entediado. Para completar, ela se sentia só por não ter amigas verdadeiras, e comentava: “Mulheres são sempre rivais”. E eu respondia: “Sueli, confiança vem da autoconfiança”, e pensava: “Como você é burra e insegura, menina”.

Sergio parece que gostou de nos ver juntas e também começou a aproximar-se de mim. Comentou que nunca havia me visto. Um tempo depois me confidenciou que queria entender melhor a cabeça das mulheres e principalmente a da própria noiva: “Ela é ciumenta, tem humor inconstante, quer provas de amor a todo o momento”, dizia. Sugeri que se mostrasse mais sensível e paciente com Sueli, mas também ouvia suas queixas e perguntei: “Sergio, como deveria ser uma mulher para você, além da beleza física?”. E ele foi enfático: “Boa na cama e companheira. Deve me ouvir como um amigo homem. Também deve ser alguém que saiba respeitar meu silêncio, sem imaginar besteiras, uma pessoa que me deixe ser quem sou sem me vigiar o tempo todo e sem exigir minha constante atenção”.

Descobri que éramos fã de rock progressivo. Sergio assustou-se porque mulheres detestavam esse tipo de som, eu não. Também mostrei o quanto curtia futebol, política, economia e temas atuais – o que sempre foi verdade, nunca tentei ser o que não sou. Mencionei minhas viagens, o uso de drogas como forma de autoconhecimento. Sergio ficou surpreso e me contou que também fizera a viagem à Bolívia e passara pelas mesmas experiências.

Mas não parei por aí. Algumas vezes, convidava-o para jantar em casa, já que vivia sozinho e estava “carente de comida caseira”, e então servia minhas iguarias. Ele se encantava e comentava com mamãe: “Dona Gertrudes, como sua filha consegue cozinhar tão bem?”, ou me perguntava, admirado: “Biga, você também tem este disco?” ou, ainda: “Nossa, Biga, como você entende de futebol!”.

Sempre gostei muito de cozinhar, mas investi pesado no conhecimento dos pratos caseiros, em aulas intensas com minhas irmãs, desde o preparo do melhor feijão com arroz a um requintado pato com laranja, muito em moda nos anos 1980. Mas não jogava a isca apenas pelo estômago, também mergulhava fundo nos manuais existentes de sexo, principalmente sexo tântrico, com os famosos orgasmos prolongados. Assistia aos filmes eróticos, lia livros, aprendia a técnica e a me tocar sem medo das sensações prazerosas. Enfim, dedicação completa para caçar a presa.
Aos poucos, percebi que Sueli parou de buscá-lo no final do expediente, e ele se mostrava entediado quando falava nela. Gostava muito de desabafar comigo, tornei-me sua amiga confidente.

Além da relação de trabalho que também nos unia, tínhamos inesgotáveis assuntos em comum.
Certa tarde, me pareceu tristonho. Acabou confessando que não mais suportava o gênio da noiva, estava a ponto de romper, percebeu que apenas a atração física mantinha aquele relacionamento.

Sugeri que fosse jantar em casa, poderíamos conversar. Era uma sexta-feira e meus pais tinham resolvido ir passar o final de semana na casa de Abília, para visitar o neto. Estaria sozinha e poderíamos assistir a um jogo de futebol na TV, depois colocaria na vitrola um delicioso rock progressivo. Sergio animou-se com a ideia, também estava só.
Chegou na hora marcada, com uma garrafa de vinho. Preparei uma massa e, depois de muitas risadas, ele confessou: “Biga, só você para me fazer esquecer os problemas. Você é minha melhor amiga!”.

E por ser “tão amiga” sugeri irmos para o sofá, falei que tirasse os sapatos e relaxasse a cabeça em meu colo. Então, iniciei uma massagem pelos ombros dele e fui descendo, deslizando lenta e
“inocentemente” minhas mãos por dentro de sua camisa, atingindo seu tórax peludo e musculoso.
Sergio, no início, retesou-se quando abri o zíper de sua calça, mas não fiz caso e continuei com a massagem. Finalmente tocava aquele corpo que tanto sonhara ter em minhas mãos. A intenção era mesmo torturá-lo de prazer. Sergio gemeu e tive medo que se levantasse, mas me deixou livre para beijar suavemente seus lábios e descer fazendo todo o trajeto de minhas mãos, agora com os lábios.
Depois disso, já dá para imaginar aonde fomos parar… “A selvagem mulher dos cabelos armados arrastou a presa para dentro de sua caverna e, finalmente, conseguiu o seu intento.”

Aquela noite foi inesquecível. Sergio descobriu, surpreso, minha imperfeita beleza e sensualidade e, eu, feliz, os prazeres do sexo.
“Biga o que fiz a você? Virgem? Não poderia imaginar! Não está certo, sou um cafajeste, você é inocente e ainda minha melhor amiga”, dizia, assustado e envergonhado com tudo.
Então respondi: “Olhe para mim, fui eu quem quis, justamente porque somos adultos e ótimos amigos; faltava apenas o sexo para nos completar. Não se preocupe, não pretendo me relacionar com você, quero partir em breve em viagem pelo mundo. Podemos fazer sexo agora e sempre que quiser. Case-se com a Sueli”.
Sergio surpreendeu-se ainda mais. No entanto, nunca recusou as investidas da mulher com cara de fuinha. Fazíamos sexo todos os dias, enlouquecidamente, até mesmo pelos cantos no próprio trabalho, sem ninguém desconfiar. Éramos amigos inseparáveis, ninguém cogitaria que um tipão como ele teria alguma coisa além de amizade com aquela mulherzinha feia, nariguda e com meio metro de altura.

Um ano depois, Sergio terminou o noivado. Mantivemos nossa relação às ocultas por mais um ano.
E, sem maiores explicações, entreguei minha carta de demissão. Havia juntado dinheiro suficiente para partir, queria viver um tempo na Europa.

Quando soube, ficou possesso, disse que eu o havia enganado. Em seguida, e para meu espanto, chorou e disse que me amava e somente agora se dera conta. Eu respondi: “Acho que você não me entendeu. Chegou meu momento de partir”.
Sergio me agarrou e suplicou: “Biga, case-se comigo. Quero você para sempre ao meu lado, você é tudo para mim”.
Foi assim que me rendi ao casamento com o único homem que amei e amo até hoje. Sergio ainda permaneceu na empresa por mais dois meses; depois, partimos juntos por seis meses para a Europa, sem destino certo. Foi o melhor período de minha vida. Na França, aproveitei para aprimorar meus conhecimentos e lá fiz alguns cursos de gastronomia.

Quando retornamos, Sergio conseguiu trabalho em uma multinacional e eu optei por estudar e prestar concurso público. Passei e me tornei funcionária do Estado. Não ganhava muito, mas não corria o risco de uma demissão. Os meninos chegaram dois anos depois. Mesmo com as crianças, não parei de trabalhar. Assim como minha mãe, fui profissional, mãe, dona de casa, companheira e ombro amigo de meu marido e única provedora do lar nos momentos críticos em que passou desempregado. E sei o quanto Sergio me admira por isso. Como qualquer casamento, tivemos crises, principalmente durante os apertos financeiros. Mas passou. Os meninos cresceram: o mais velho já está até casado, e o menor mora no interior. Nossa casa ficou vazia e, como nos velhos tempos, voltamos a prestar mais atenção um no outro.

Entrei bem gorda na maturidade. A satisfação em preparar quitutes me rendeu muitos quilos extras. Com a menopausa, tive calores intensos, ficava encharcada e toda vermelha, parecia que estava tendo um ataque. Busquei um médico e o tratamento foi fechar a boca e praticar exercícios. Também passei a usar fitoterápicos, que afastaram o mal-estar. Como sou determinada e gosto de desafios, emagrecer foi uma batalha que jurei vencer. E consegui. Perdi mais de vinte quilos apenas com educação alimentar e atividade física.

Mas foi após os 50 que, finalmente, enxerguei-me interessante, valente e sedutora. Meu corpo, tão quadrado, tornou-se alongado; ganhei imensa disposição física e, como nos primeiros anos de casamento, voltei a atacar o meu marido como uma fera no cio. Ele adorou. Com mais tempo livre, comecei a reconquistá-lo, reavivando nosso fogo. Para completar, resolvi ser moderna e alisar os cabelos. Quando Sergio viu meu novo visual, deu um passo para trás, espantado, e falou: “Biga, o que é isto? Você está com cara de ‘manga chupada’! Quero a minha selvagem dos cabelos armados de volta!”.

Conhece o ditado: quem ama o feito bonito lhe parece? Ele tinha razão, aquela não era eu. Voltei para o visual de sempre e que, no fundo, eu também preferia.
Estou em vias de me aposentar pelo Estado. Minhas irmãs abriram uma confeitaria, que está sendo um sucesso danado, e da qual participo ministrando aulas de pães e sobremesas, nos finais de semana. Depois da aposentadoria quero me dedicar exclusivamente à pâtisserie junto com elas e até sonho em abrir uma filial.

Recentemente demos uma entrevista para uma renomada revista paulista, já que nos tornamos conhecidas como “as irmãs dos melhores pães da cidade”. Rimos do duplo sentido contido na frase. De certa forma, nós três conseguimos fisgar homens considerados “pães”.
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MARIA ROSA VON HORN –
É brasileira, advogada e empresária. Aos 50 anos criou o Fifty Models, a primeira agência virtual de modelos com mais de 50, o que resultou em uma mudança de padrões fazendo emergir nos meios de comunicação as poderosas fifties. A proposta inusitada foi fruto de sua experiência pessoal ao ingressar na maturidade e das inúmeras histórias de vida das mulheres que lhe relatam seus “segredos e medos” nesta fase.

Leia mais: #contesuahistória – Aquele vestido verde, por Maria Cristina Santos

 

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