Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Crise e transcendência,
por Marco Aurélio Fernandes

 

 

 

Disse o Anjo: “O agir é livre, o querer não”.

Este ano, parece que a crise nos pegou de uma forma como nunca antes. Temos a impressão de uma situação muito difícil, em que, além do estrangulamento salarial, somos constrangidos a conviver com a insegurança física de assaltos, roubos e até assassinatos de pessoas queridas – e, além disso, com os problemas advindos do uso de drogas e doenças ainda não dominadas pela ciência.

Uma desesperança quer invadir nossos corações e mentes e junto com a falta de perspectivas, a inquietude grassa em nosso dia a dia, em nosso trabalho, nossas casas e famílias. Será que não há jeito? Não há, se aceitamos a realidade como parece ser e nos acomodamos apenas na vida a que essa aparente realidade – o mundo dos sentidos e do mental – nos condiciona. Vejo as coisas de maneira diferente e acho que o leitor ao qual me dirijo pode ter esperança e viver de forma satisfatória se, em primeiro lugar: a) descobrir e aceitar que a vida transcende o mundo material – que o princípio da Vida pode estar no mundo espiritual e que o mundo material é apenas o nível mais grosseiro do Universo; nesse sentido, o Universo seria um enorme ser vivo, do qual ELE seria o espírito e a parte visível, o mundo material, seu corpo – de uma maneira bastante simplificada de ver as coisas. b) descobrir e aceitar o princípio da relatividade, não apenas no sentido expresso por Einstein, mas também aplicado à concepção de níveis relativos de existência no Universo; assim, de acordo com um quadro tradicional, teríamos os níveis mineral, vegetal, animal, humano, o do Anjo, o do Arcanjo e a Divindade. Nesse quadro, o Homem está no meio e seu destino é completar a ponte entre o mundo inferior e o mundo superior.

Essas descobertas e aceitações podem levar, depois, ao uso há muito relegado, do discernimento de que o ser humano é capaz. Aprofundando mais, seria possível perceber pelo menos que o homem tem não só um corpo, mas também um emocional e um mental com vidas e inteligências próprias; se introduzimos a alma e o espírito, teríamos cinco níveis que convivem no ser humano. Poderíamos ir mais longe mas, para o que queremos transmitir neste artigo, basta: a partir dessa introdução, vamos trazer o conceito perdido de religião, cuja raiz é “religar” e, portanto, a religião deveria religar o homem com os planos superiores não materiais, ou com o Divino, que é a sua verdadeira origem, sua natureza, da qual ele vem se separando, sobretudo neste milênio, aceitando cada vez mais a identificação com o mundo material, através dos sentidos e do seu ‘mental concreto’. Nada mais racional, nesse mundo, do que se pensar numa só vida, sem origem em outros níveis e com um fim inevitável e vazio, dentro do qual as noções de Céu e Inferno parecem apenas coisas de catecismo para crianças.

Entretanto, o homem nunca encontra satisfação plena no mundo material e sensual, nem no dinheiro e no que ele proporciona, nem nos prazeres diretos ou indiretos. Por outro lado, a beleza da vida e seus mistérios estão aí: a natureza, as crianças, a inteligência humana, os sonhos, o amor verdadeiro. Por que esse aparente paradoxo?

Lembremo-nos de que, se o SER SUPREMO é perfeito e onipotente, não poderia impor ao homem sua vontade, de que ele acredite Nele e o siga: daí decorreu o livre arbítrio. Ou seja, o ser humano pode escolher o seu caminho, que por isso mesmo é individual, já que, de acordo com colocações tradicionais, cada um é criado à imagem do SER SUPREMO e é o Universo em miniatura, – é claro que em linguagem simbólica, – e, como tal, uma centelha do mesmo, que pode, se quiser, voltar à origem, evoluído, onde, aí sim, encontrará a satisfação plena. O que prende o homem ao mundo material, além de seus preconceitos sobre o Universo vivo? O seu apego tem a base no desejo, que sempre é insaciável; e a contra-face do desejo, o outro lado da moeda, é a aspiração da “volta”. O primeiro passo para essa volta possível está no significado da palavra ‘metanoia’, que foi traduzida, de maneira equivocada, no Novo Testamento, por sofrimento ou sacrifício ligado ao sofrimento, porque interessava a certos segmentos da Igreja Católica que o povo aceitasse o sofrimento, para depois “ir para o Céu”. Embora o sacrifício tenha um certo sentido, (conforme exponho adiante), essa palavra na realidade quer dizer ‘transcender a própria maneira de pensar’. Acontece que, se transcendemos os limites do pensar racional, logo de início temos de admitir não só outra vida, mas outras vidas, porque o conceito de morte muda e os renascimentos (ou reencarnações) de um princípio maior, que podemos chamar de alma, passam a ser não só naturais, como necessários para que o ser humano possa, ao longo da escola da vida, ir se experimentando e se provando, para ter a chance de evoluir. Mas, o que evolui? Só agora podemos falar da consciência que permeia o Universo e que tem sua existência relativa no homem – da qual a atenção, podemos dizer, é uma semente. E quem não sente o que é a atenção, o que é concentrar a atenção? Através do contato com a atenção podemos ter a porta para outros níveis e desenvolver nossa consciência. Dito assim, parece simples – mas são necessários muito ‘trabalho interior’ e dedicação. Aí começa a grande busca, que continua com a pergunta: quem sou eu? E através do autoconhecimento, do ‘conhece-te a ti mesmo’, o homem pode desvendar os mistérios da existência, fora e ‘dentro’ dele. E onde se colocam o sofrimento, as doenças, as crises, os problemas do dia a dia? É claro que não podemos escamotear a realidade do mundo material, nem escondê-la debaixo do tapete de uma religião equivocada. Entretanto, o estudo da relatividade do Universo e dos níveis de existência e de consciência pode nos ensinar que, para que o Divino possa se densificar até o nível material, são necessárias passagens de níveis em que ‘perde’ energia e ‘ganha’ matéria: nessa ‘descida’ – de maneira simplificada – é natural que se agreguem impurezas e que o próprio ser criado vá se tornando menos puro e mais apegado ao mais denso. E isso quer dizer que a volta para o Divino tem de passar pelo sofrimento voluntário, pelo sacrifício de si mesmo, dos níveis de ‘sombra’, como meio de purificação e sutilização, pelo caminho de transformação de que tanto falam as tradições autênticas, os mitos, a Alquimia, a Cabala e ainda a Astrologia, enfim o que atualmente já é mais identificado como ‘esoterismo’. O caminho de volta só pode ter início, portanto, após a possível conversão, que se segue à ‘metanoia’. A partir daí, o ‘chamado interior’ faz com que o ser tenha cada vez  mais concernimento em relação ao seu ‘ser interior’ – o qual, a partir disso, pode ‘conduzir’ o indivíduo (por meio de um possível ‘eu observador’) no seu caminho através da própria vida exterior. E depois, ele pode perceber que as condições dessa vida exterior são sempre as mais indicadas para ele e para as pessoas que o cercam, no sentido de lhe propiciar as situações mais condizentes com sua possível ‘evolução interior’. E decerto, seus novos ‘discernimento e concernimento’ (experienciados com uma autêntica seriedade e responsabilidade) acabam servindo de exemplo para seus pares e também para as pessoas com as quais convive ao longo do tempo.

 

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MARCO AURÉLIO FERNANDES é arquiteto de formação. É muito ligado à busca interior – e apaixonado por Astrologia, que estuda há mais de 30 anos. Já publicou o livro infanto-juvenil ‘Raio de Sol e a Maldição do Dragão’ – e no momento está em vias de publicar um outro (adulto), chamado ‘Faca no coração’,  com poemas, crônicas e contos.

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