Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Dalila,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Abri os olhos, lá estava ela,  a imagem um pouco desfocada.

Longos cabelos negros brilhavam à luz branca de neon.

Balançava a cabeça de um lado para o outro, eles voavam.

Levantava os braços, arrebanhava os fio e os puxava para topo da cabeça como se fosse prendê-los em um rabo de cavalo.

Soltava a manta escura, arrebanhava-a novamente, dessa vez levando a cabeleira para o rosto.  Se estivesse mais perto de mim, seguramente sentiria a fragrância dos cabelos recém lavados.

Perdida nessa viagem emanharada, esqueceu onde estava.

Uma forte dor me fez fechar os olhos. Quando os abri, ela tinha desaparecido. Cerrei as pálpebras para recuperar a cena.

Uma dor aguda me fez  gemer.

Outra enfermeira veio me acudir,  o rosto emoldurado por uma touca imaculada.

O sorriso nos olhos não compensou minha decepção.

– Qual o nome da sua colega?

– Qual delas?

– A de cabelos soltos.

– Ah!  É a Dalila.

Dalila…

Que com seus cabelos adornou a sala de UTI.

Que me fez lembrar que a vida existe além da dor.

Que com seus cabelos varreu  o cheiro da morte.

Que deixou um aroma de flores frescas no ar.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

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