Este artigo é parte do Clube dos Escritores

David,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Com as mãos agarradas em uma barra alta, alçava e baixava o corpo, bem devagar.
Soltou-se, deu um pulo de gato para o chão.
Olhou em volta, me viu, bom dia.
Parei a caminhada, bom dia.

Falar o quê?

Sorri e recomecei a andar.
Você caminha sempre por aqui?
Sim. E você faz muito exercício?
Sim.

O papo morreu.

Difícil afastar a vista.
Quer pegar?
Pegar o quê?!
Quer pegar no meu corpo?
Sorri, virei a cabeça, alcei a mão, não, imagine!
Pode me tocar, pode me tocar.

Difícil acreditar no convite.
Vem, pode me tocar.
Sorri, fiquei olhando pra ele. Não, imagine!
Sorriu pra mim. Pode sim! Vem!

… Apalpei o braço dele.
A carne quente ondulou.

Qual o seu nome?
David. Com d mudo no final.
David?! Você é uma obra de arte, David.
Sorriu.

O papo morreu.

Já vou indo, obrigada.
De nada, imagine! O David de Michelangelo nasceu em 1504, século XVI, em Florença, Itália. Possui carne de mármore de Carrara.  Somos proibidos de tocá-la.
Encontra-se abrigado na Galeria da Academia de Belas Artes, na mesma  Florença, longe dos olhares do grande público.
Difícil não desejar arrancar um pedaço.

O nosso David, mais generoso, nascido no século XX no Brasil, expõe-se a todos os olhares e permite que seu público aprecie o calor de seu corpo.
Difícil não desejar arrancar um pedaço.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

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