Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Destino de ateu,
por Eder Quintão

Sempre foi ele convicto ateu              

Isso pregando enquanto viveu       

Para agonia da mãe que o pariu

E como tal, desse mundo partiu. 

Deixou ainda exigência descabida

Injustificada em sua madura idade

Ao legar aos seus, difícil herdade

Para seu corpo, fado necessitado

Nesse momento, bem inadequado,

Demandando deles pronta solução

À incômoda e complicada questão:

Onde aqueles restos repousarão?

Exigindo serem bem endereçados

Sabendo-se, ele não abriria mão

Estar em melhor jazigo, sepultado,

Temia quem seriam seus vizinhos:

Estaria sempre bem circundado

Ou preferível, enterrado sozinho

Como convicto ateu obstinado?

Foi um pesadelo ter que imaginar

A que defuntos deveria ele tolerar

Sabendo tê-los sempre aos lados.

Essencial então aprender primeiro

Quais rejeitaria de companheiros.

Vê-se que uma cruz jaz ao norte 

Mas, sendo ela de enorme porte

Parece sinal macabro e estorvado.

Ainda ao sul, não tem melhor sorte,

É outra mais, com um anjo talhado

E um triste arcanjo mal desenhado

Obra de artista assaz deficiente.

A leste repousa outro tombado,

Porém, parece muito ostentado

Para o gosto agnóstico exigente

Tendo retrato frontal mal-acabado

Da virgem mãe com o filho amado.


A oeste dá-se conta ser pior aí

Pois surge em pedra estampada

Embora, com anos até apagada, 

Esculpida, a ínclita estrela de Davi.

Era só o que a nosso morto faltava:

Aquele judeu, religioso respeitado

Filho amado de rabino já passado:

Seria heresia para ateu sepultado

Tê-lo assim muito próximo ao lado

Deixando-o defunto desmoralizado.

Por isso, esperava-se algo melhor.

Porém, tendo do islã, lua minguante 

Pairando acima o signo do levante

Iria humilhá-lo e, talvez, ainda pior                       

Porque uma noite dessas abalaria

Seu belo legado e douta sabedoria

Se soubesse que fora ali velado

Por noturna maometana confraria.

Resultaria impróprio estar cercado

Por fiéis religiosos mui recatados

E inconvenientes ao ateu reputado

Sabendo-o exigente consumado.

Temendo-se paradeiro malfadado

Por serem os vizinhos repudiados, 

Decidiu-se: melhor tê-lo cremado.

Mas, surgiu inesperado sério enfado

Porque subiria ao céu como fumo

Em cinzas esvoaçantes, sem rumo.

Pegaria mal aos confrades ateus

Descumprir tal promessa perene 

Àqueles queridos seus, feita solene 

De intolerância a religiosos ao lado

Mas, pior, seria aos céus ter voado.


Por sua vez, seria bastante afrontoso  

Chocando-se com passado honroso

Ter o corpo em chamas despachado. 

Tal insulto a ele, não se cometeria

Porque seria o cúmulo, triste ironia

Sendo intolerante enquanto vivia

Apoquentar-se agora com anjos

Insossos celestes esvoaçando 

Louvando-o em excelsos trinados

De sons lúgubres e enfadonhos

Que fariam dos outrora sonhos

Pesadelos muito mal lembrados.


Pior então a emenda que o soneto.

Lembrando-se desse velho ditado,

Argumentou-se com bom cuidado

Como de seu corpo se disporia.

Pensou-se logo tê-lo mumificado.

Daí, bem maquiado, algo rosado,

De tez morena, agora preparado

Exposto em esquife envidraçado

Repousaria num plácido jardim

À vista mostrado, quiçá respeitado

De flores artificiais, bem enfeitado 

Certo que constantemente visitado.

Mas, seria amado e lembrado assim?

O que diriam dele tantos detratores?

(Sempre aqueles hipócritas senhores,

De templos, assíduos frequentadores).

E o que fariam os severos credores?

Penhorariam o caixão e até as flores?

Da esposa saudosa, tantos lamentos           

Ao vê-lo impotente, como era antes.

Mas diria com pesar a outrora amante:

“Aqui jaz meu sedutor que galante,

Contentava-me com paixão gigante”.

Isso, para defunto, plena consolação.

Mas, da sogra, religiosa e intrigante

Se ouviria certo impropério maldoso: 

“Jamais foi virtuoso; apenas vaidoso”

Devota praticante de santa religião

Vingando-se dele com humilhação

Faria em represália sórdida missão

Impingindo-lhe a assídua intrusão

De piedosas carpideiras entediantes

As tantas carolas, notórias farsantes 

A debulharem as contas dos rosários

Como fazem nos altares aos santos 

Esvaindo-se elas em falsos prantos

Orando a deus com toda devoção

A manter a alma impura em danação

Enquanto perdurasse a exposição.

Além disso, deixaria vasta criançada 

Pela visão macabra, toda assustada.

Então, para não se cometer desatino   

Procurou-se mais adequado destino 

Que ao defunto melhor apeteceria.

Com o devido respeito, por certo 

Decidiram lançá-lo em mar aberto

Para justo repouso bem lá no fundo.

Mas a ninguém o inusitado antevia 

(O que só ocorre em nosso mundo).

Pasmem todos, que lhe aconteceria

Logo deparar-se com linda sereia

Lamuriando-se com o deus Netuno,

(Absoluto senhor do oceano abissal

Mais prazeroso do que o celestial) 

Convencendo-o logo ressuscitá-lo

Para em suave enlace abraçá-lo. 

Com ela usufruiu um gozo pleno

Recebendo mais deleite e enlevo 

Do que os tidos no mundo terreno

E ali regalou-se por tempo eterno.

Pelos humanos vivos, logo olvidado

Confortado, feliz, todo mergulhado

Em águas azuis como doce morada

Sem que nunca essa bem-amada

Soubesse ter ao longo da vida sido 

Certo ateu, exigente, empedernido.

Dele soubemos pela fogosa sereia

Às vezes, vindo ao sol sobre a areia

Entoando seu lindo canto matutino

Grata àquele amor quente e genuíno.

Fora ele ao deus Netuno convertido

E o ateísmo, prontamente esquecido.

EDER C. R. QUINTÃO – É graduado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina desde 1959, doutor em Endocrinologia, comendador da Ordem do Mérito Científico pela Presidência da República do Brasil, livre-docente de clínica médica, professor, pesquisador, membro da Academia Brasileira de Ciências e avô orgulhoso de três netos. “São o mais importante feito do meu CV”, segundo ele. Escrever não entra no CV, é paixão.

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