Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Encontro misterioso,
por Marco Aurélio Fernandes

 

 

 

Exclusivo: leia aqui no Clube dos Escritores um conto inédito de Faca no coração, o novo livro de Marco Aurélio Fernandes, que será lançado pela Riemma Editora. Fique de olho!

Era uma noite chuvosa e fria; o trânsito estava moroso na volta para casa, após um dia estafante de trabalho no escritório. De repente, percebi que iria passar por aquele bistrô aonde ia muito com a Beth, tanto tempo atrás…

Uma estranha sensação me invadiu, e quantas memórias inundaram minha cabeça, reavivando momentos inesquecíveis de nossa trajetória juntos!… E pude sentir de novo o gosto amargo da angústia dela, quando naquela ocasião lhe disse, finalmente, que não poderíamos ficar juntos: num ímpeto descontrolado, ela afirmou que nunca me perdoaria – o que decerto me deixou surpreso e bastante pasmado!

Intempestivamente, resolvi parar o carro, e lá entrei, buscando um dos cantos que costumávamos curtir no tal bistrô: uma figura conhecida me atraiu a atenção e, antes que pudesse reagir, uma exclamação brotou de algum nível obscuro do meu ser:   — Beth! que coincidência!

Ela me penetrou com o olhar, como uma águia ao hipnotizar sua presa:

– Estava esperando por você!

Sentei defronte a ela, e somente após um tempo interminável consegui chamar o garçom e fazer um pedido – de coisas que apreciávamos juntos – mas ela não quis nada, preferindo uma postura com aura de um mistério inquietante.

Ficamos ali, por um bom tempo, com trocas de olhares, às vezes diretos – olhos nos olhos – às vezes furtivos, que de toda forma traziam lembranças especiais, dos tempos em que nos curtíamos com uma sincronicidade tão fora do comum!

Depois de outro tempo incontável, como que reagindo a um estranho feitiço, falei: — Preciso ir, a gente se encontra qualquer hora.

Ao que ela retrucou: — Impossível, estou indo embora!!

Sentindo estranha aforese, muito sem jeito, mal me despedindo, — e sem olhar para trás – saí, com um sensivelmente forte aperto na garganta. Já na rua, notei uma bruma espessa, que parecia contribuir para aumentar o mistério daquele encontro tão inesperado.

Naquela noite, quase não peguei no sono; eram tantas as lembranças especiais dos tempos de outrora, em que nossas energias tinham se combinado de tal forma especial, que às vezes pareciam um ‘encontro de almas’: elas foram passando na minha cabeça, como numa espiral diferente, de um tempo que certamente (mas infelizmente) não voltaria mais… Dentre tais lembranças, me veio aquela dos versos do Fernando Pessoa, os quais, justamente naquela ocasião (em que nos encontrávamos com tanta frequência), tinha recortado de um jornal conhecido para mostrar a ela – e vale a pena citar aqui: – “E eu, que amo a vida / mais do que o sonho,/ e o sonho e a vida juntos, mais do que ambos separados, / e que não  sei sonhar senão a vida, / e que não sei viver senão o sonho, / hei de ficar aqui, entre os outros / e seus descendentes?”

Três dias após esse encontro, surpreendentemente deparei com a Mara, amiga comum daqueles tempos, num bar/café que nós três costumávamos frequentar – e lhe contei com detalhes o que havia ocorrido.

Ela me pareceu ficar congelada num sentimento, mas balbuciou, espantada:  “Meu caro amigo, foi na noite em que Beth desencarnou! – e ninguém da família admitiu avisá-lo! Que estranho!!!”

Um calafrio e um turbilhão de pensamentos e emoções desencontradas me fez tremer de maneira quase perceptível: encarei-a, sem conseguir disfarçar a surpresa, mas desviei o olhar, enquanto lhe acenava e me afastava, – sem me despedir dela adequadamente –  saindo do lugar… refletindo, circunspecto, no fato de que há experiências muito mais marcantes e vivas do que se pode imaginar…

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MARCO AURÉLIO FERNANDES é arquiteto de formação. É muito ligado à busca interior – e apaixonado por Astrologia, que estuda há mais de 30 anos. Já publicou o livro infanto-juvenil ‘Raio de Sol e a Maldição do Dragão’ – e no momento está em vias de publicar um outro (adulto), chamado ‘Faca no coração’,  com poemas, crônicas e contos.

2 comments

  1. O autor cria um clima de misterioso encontro, antecipando no leitor a expectativa de que poderia ser uma miragem, um fantasma, o que depois se apresenta como uma visita antes de partir. Cada um lê de acordo com suas crenças, mas é vívido que encontros atravessam tempos e espaços.

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