Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Escatológica II – Lattes?, por Sergio Zlotnic

É batata: um cachorro logo vai cheirar o fiofó do outro. Ali – procedendo a traduções (desconstruções) – recolhe inúmeros dados. É assim que ele sabe do almoço, do jantar e do café-da-manhã do vizinho. Cardápio que desenha lugares sociais. Organograma. Um mapa inequívoco que indica posições e hierarquias. Na matilha, na alcateia, no grupo. Cardume. Rebanho. Alfa, beta, gama, delta. Pedigree. Currículo. Lattes…

Em vernissages, frequentadores também puxam assunto. Farejando riquezas. Entre vinhos. E perfumes. Entrelinhas: ‘trabalha com que?’; ‘vem sempre aqui?’; ‘qual seu signo?’; ‘qual seu sobrenome?’; ‘quanto ganha?’; ‘há quanto tempo na cidade?’; ‘chegou de onde?’; ‘já leu Proust?’; ‘ainda não?!’; ‘nem Tolstói?’…

Há quem não goste de ser inquirido. O bom é ser querido – sem informações prévias ou póstumas.

“Quero ser apreciado pelo que eu sou – e não pelos meus títulos, nem pela minha conta bancária”, disse um.
“Exijo ser reconhecido pelo meu talento e não só pelo meu corpo”, disse outro.

“Beije minha boca e não o meu currículo”, disse um terceiro.

Questões delicadas, relativas a trabalho. Sobrenomes. Finanças nem se fala! Origem. Planos. Desejos… Coisas muito pessoais. Não se pergunta.

Pois não prestam interesses que brotam na maledicência. Nascidas do controle e da competição, curiosidades matam.
– Mexeriqueiro! Gritaram! E eu – pobre de mim – tão inocente.

Elementar: perguntar = cheirar fiofó.
Não bonito. Feio.
Moral: Postura ereta.

Desde que o homem ficou em pé, na história da humanidade, cheirar não cai mais bem. Aliás, cai mal. Bem mal.

PS – Esclarecimentos científicos. Armazém de curiosidades. De fato: sabe-se desde o outro século, com a postura ereta, no percurso do homem, houve recalque do olfato. E, então, que bom: sexo o ano todo, não mais somente no cio da fêmea… Quintal permanente de prazer! Irreversível. Ali, naquele ponto, milênios atrás, sexualidade e reprodução se separaram (a Religião não notou isso). Já os nojinhos são bem mais recentes. Vale lembrar, conforme já se dissera, repugnância é atração com sinal negativo. Pois não houve aquele famoso imperador? Aquele que mandou carta a sua amante? Ali ele pedia: “chego em dez dias, não tome banho desde já”. Não vou citar nomes.

*Ilustração por Adão Iturrusgarai
*Ilustração por Adão Iturrusgarai

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SERGIO ZLOTNICPsicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

 

ADÃO ITURRUSGARAI – É cartunista, ilustrador e artista plástico brasileiro. Vive entre Argentina e Brasil. Seus trabalhos são publicados no jornal Folha de São Paulo. Tem mais de 20 livros publicados em vários idiomas. Paralelo a estas atividades, tem pinturas que podem ser conferidas [e adquiridas] em seu site. *A ilustração aqui postada é inédita e foi criada especialmente para a série ‘Escatológicas’.

2 comments

  1. Sergio, você escreve psicanálise, história e ainda por cima literatura. Observação perspicaz, irônica e inteligente. Aliados ao humor, conjunto é hilário!
    Você põe o dedo na ferida dos comportamentos sociais, burocráticos, hipócritas e ao mesmo tempo necessários em nosso tempo, em nossa cultura. Cheirar o fiofó é proibido!
    A sexualidade está reprimida, bem menos do que antigamente, mas mesmo assim, só se solta, se conseguir, no quarto fechado. Mas no salão, ela está ativa, interessada e se traveste como como pode, às vezes irrompe fronteiras, aliás cada vez mais.
    Cheirar o fiofó seria bem mais econômico.

    1. hahahahah Loeb! que bom! Acho que fiofó é uma palavra que sem perceber eu resgatei do baú – e fez sucesso: Vera Dayan está desejando de ano novo judaico que tenhamos muitos fiofós pra cheirar [fiquei sem saber se era metáfora]. Ela diz que gostou da palavra! 🙂

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