Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Fazei o bem não olhai a quem por Sergio Zlotnic

1- Quando se faz o bem a alguém – um favor, um grande gesto fortuito, uma pequena gentileza ou uma grande doação, material, espiritual, financeira, de qualquer ordem, para retribuir algo recebido ou absolutamente à toa, por amor ou altruísmo, obrigação ou polidez, gastando $$$ ou tempo, tutano ou suor, com dedicação e parcimônia, capricho e consideração, de boa vontade ou a contragosto, salvando uma vida ou não, enfim –, o resultado será sempre uma pessoa grata, do lado de lá.

Que, então, diz: “OBRIGADO!”.

Todavia, como todo ser humano, no fundo, sabe de seu próprio egoísmo e idiossincrasia e, por consequência, é ciente de que, por mais que tenha feito, poderia sempre ter feito mais um pouco, como sabe de sua mesquinhez funda, mesmo que invisível aos outros, como sabe também de todas as desgraças que assolam o mundo inteiro, sabe da fome, da miséria, da perfídia, da violência, da injustiça, das falcatruas e das guerras, que tornam qualquer bom gesto fração demasiado ínfima de contribuição cósmica, receber o “OBRIGADO” com naturalidade é – sem exceção – insuportável.

Receber sem restrição qualquer agradecimento, por mais sincero que seja, gera sentimento de impostura pesado demais. Pois todo cidadão, pessoa física, sabe de seus pecados. Grandes ou pequenos. Sabe de suas vaidades, gordas ou magras. Sabe de suas velhacarias. Sabe que levantou a voz pra vizinha, por detalhe torpe, em Santos, num verão longínquo de outrora, por exemplo. Ou na Praia Grande, não vem ao caso.

Motivo pelo qual, depois do ato heroico, depois de salvar um sem número de desgraçados, nos filmes de aventura, o socorrista desaparece. Puf, sumiu!

Quando o flagelado, cuja dignidade foi restituída, se volta para agradecer, naquele momento preciso, o salvador evidentemente já não está mais lá – tendo evaporado no instante anterior; não sem antes certificar-se de que todas as garantias institucionais e legislativas foram recuperadas e devidamente restabelecidas de forma irreversível.

Depois de checar que a ordem reina absoluta, o herói se dissolve, sem deixar vestígios.

É assim aqui, alhures e acolá também. Não pode ser diferente em nenhum lugar.

Pois, a verdade maior é que o agradecimento devido é indevido. Paradoxo!

Donde, permanecer para receber louros vãos, onde quer que seja, é imodéstia indesculpável.

O “OBRIGADO” do frágil agradecido, ou de qualquer cristão, gera tamanha culpa que o sujeito ponderado, com razão, não quer e não pode carregar.

Caso aguardasse para escutar palavras recheadas de gratidão, o herói seria fulminado pelo abissal contraste entre a sua própria autoimagem e a visão que o desamparado faz dele.

A idealização que o socorrido faz do salvador é como uma capa divina que leva o herói a crescer artificialmente, acedendo ao Olimpo, por assim dizer.

2- Este mesmo estado de coisas se verifica em qualquer situação e circunstância, banal, corriqueira e cotidiana, ou excepcional, faraônica e helênica. Franciscana ou não. Tanto faz como tanto fez.

Quem dá algo e em troca ouve o “OBRIGADO” é obrigado a retrucar “de modo algum, obrigado a você; eu é que agradeço; não, obrigado eu; insisto, quem diz OBRIGADO sou eu. Não, não é, sou eu. Negativo, discordo; não foi nada; você teria feito o mesmo; não, não teria. Jamais teria”…

Inicia-se assim interminável discussão, jogo de empurra, “fique você com essa porra de OBRIGADO”.

3- Batata-quente, Cavalo de Troia. Ninguém quer agradecimentos enfiados nas vísceras, apodrecendo no âmago da alma, gerando mal-estar, náusea, sucos gástricos, vertigem, azia, enfermidades diversas. Não há solução.

“Enfie no cu a sua gratidão, seu filho da puta”, disse alguém, outro dia, com pavio curto, não vou citar nomes.

Não! Não se apoia aqui a falta de educação, de jeito nenhum. Entretanto, há que se reconhecer o sadismo daqueles que agradecem. É pedir muito?
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4- O mesmo ocorre quando dois amigos vão a um restaurante – e um deles resolve pagar a conta.

“De jeito nenhum; faço questão; o que é isso?? me dá aqui a merda dessa conta; larga isso; meto a mão na sua cara agora mesmo; viado é o seu pai…” – assim por diante e por aí vai.

As Secretarias de Segurança dos Municípios não divulgam, com receio de gerar pânico na cidade, porém, sabe-se, na estatística, a cena acima descrita é causa maior de homicídios dolosos.

Cuidado, portanto.

Melhor deixar o outro pagar – e, como vingança pelo desaforo, agradecer em seguida.

Fica a dica.
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5- Observação: o Teatro, sempre mais sábio, faz diferente. No solo sagrado do palco, um ator deseja “merda” ao outro. E é proibido agradecer.

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Texto: Sergio Zlotnic – janeiro 2010.

SERGIO ZLOTNICPsicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

 

TOM VIEIRA  Ilustrador; artista plástico; iluminador de Teatro. Pesquisador da fronteira entre a luz e a sombra. A imagem que ele constrói aqui, especialmente para o texto, remete a algo em suspensão – que não se sabe se vai ser ligado ou desligado. Chama-se “Nossatanásia”. Seria o gesto mais generoso possível – que todavia não pode ser agradecido: pois o contemplado morreu [foi morto] e não pode mais dizer OBRIGADO! Alguém desligou as máquinas?

A frase: “UTI é o avesso de um aborto” é o que parece estar em questão. Essa ideia nasce da última peça que Tom Vieira iluminou, chamada “Berenice Morre!”. A ligação UTI/aborto, aliás,está num conto aqui do fifties: “doem juntas” – metáfora que deu origem ao espetáculo teatral de 2016. Contato: [email protected]

12 comments

  1. Zlotzz, o seu texto mexeu com meus neurônios de tal modo que imediatamente começaram a trabalhar desenfreadamente.
    Assim que sossegarem vou poder escrever alguma coisa mais inteligente.
    Enquanto isso, falo como a Vera, você é danado de bom!
    Beijo,
    Sylvia

  2. O texto é divertido. Mas não concordo. Muito bom sentir gratidão e agradecer. Não me sinto nada podre fazendo isto. Sou mais Melanie Klein.

    1. nem eu concordo, evidentemente! ironia – é o nome das afirmações que colocam as coisas do avesso! mas fica o registro de que ‘gratidão’ virou palavra da vez – usada à toa; como o gerundismo no passado recente, ou o ‘a nível de’ no passado anterior… aqui começa um movimento que se opõe à banalização da ‘gratidão’ [mas não me agradeça por isto!].

      1. Em tempo: a ilustração acima é de Tom Vieira. Espécie de Basquiat brasileiro. Os créditos e as referências já vão aparecer na postagem. Aqui talvez o texto só pode ser compreendido [ou salvo] com a tradução visual do artista. Antecipando: a imagem que ele constrói refere-se ao gesto mais generoso possível – que todavia não pode ser agradecido: pois o contemplado morreu [foi morto] e não pode mais dizer OBRIGADO! alguém desligou as máquinas? A frase: “UTI é o avesso de um aborto” é o que parece estar em questão…

  3. Sérgio,
    Estou aqui pensando se o “obrigada” que incomoda não é aquele recortado no tempo, eternizado, o que traz consigo o ponto final. Quando ele pertence ao fluxo, quando depois dele vem vírgula, talvez não pese porque o jogo vira e, aquele que agradeceu, será o executor do gesto que atrairá para si a gratidão. Gosto da ideia de uma rede de ajuda onde todos têm algo a oferecer e todos têm necessidades a ser preenchidas.
    Neste cenário ninguém é herói e ninguém é mendigo. O que se vê são seres humanos compartilhando o ato de se estar na vida, até que a máquina seja desligada completamente.
    Sempre haverá um outro para retirar o plug da tomada…

    1. Boa, Regina! A política se dá hj em dia desse primeiro modo, cristalizando o cenário, não? ‘comiseração’ é o nome do sentimento que faz uma hierarquia dos seres humanos…

  4. Sergio voltei domingo. Chicago! Que cidade!
    Li e quero reler.
    De supetão:
    Creio que entendi. Já vivi a gratidão das lagrimas ao meu amigo e marido falecer saindo , lentamente, do sofrimento.
    Deixei de ser grata a qq. pessoa ou situação quando descobri a mim e à natureza. Será Deus?
    Sobre a sua elegância ao escrever nao vou siquer mencionar mas , colocar o conteúdo desta forma
    é unica. Concordo inteiramente!
    Gostaria de conhecer Tom Viera. Desde o dia que desenhou um par de tenis dependurados para o seu texto.
    Obrigada e espero poder estar com todos logo mais.

    Se tiver um hiato de tempo, veja a publicação do meu site Legadovivo desta semana sobre felicidade!
    B
    OBs: ( tem uma versão da moda que já foi e que dizia :
    ” fulano…. enquanto ser humano…”)!

  5. Bettina! fui lá! deixei um comentário.

    colando aqui:

    “que lindo!
    vc circunscreve com palavras um espaço virtual!
    metáfora de ficção.
    metalinguagem do ato de escrever…”.

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