Feliz aniversário - Adília Belotti - Fifties Mais - Divulgação

Feliz aniversário!


Monica Horta sempre me disse que inferno astral não existe, mas….que antes dos nascimentos as coisas precisam ser devidamente gestadas e paridas! Como para a astrologia aniversários são nascimentos, n
a prática, isso quer dizer que antes do aniversário a gente vive um momento inquieto, cheio de indagações, daquelas que se resolvem no silêncio, não nas pesquisas do Google.  Não importa a idade, fazer aniversário é seu ano-novo pessoal, com todo lote de emoção e frio na barriga que esses momentos de virada contem.

Claro que esse ano é diferente. Um pouco porque nós somos diferentes a cada ano, apesar do nosso medo de mudanças. Um pouco porque fazer 60 e escrever um post de blog a respeito exige uma certa ousadia.

Pois é, 60. Não tenho nenhuma dúvida de que nós, dessa minha geração, fifties ou sixties, vamos viver essa fase de um jeito novo. Ousado. Sobretudo por absoluta falta de alternativas. Estamos vivendo  mais. E, se tudo der certo, melhor. Além disso, e provavelmente pela primeira vez na história, estamos vivendo isso juntos, coletivamente.  Vamos ser muitos velhos experimentando longas velhices pelo mundo logo, logo. E compartilhando nossas perplexidades e descobertas, ao vivo ou nas redes, se possível, fazendo barulho…

Não posso dizer hoje, último dia antes do meu (re) nascimento, que estou com medo.  Medo da morte? Acho que não. A morte é nosso horizonte, não importa o cenário.  Quero estar presente naquele instante em que você, como Juan Miró, aos 92, olha para o mar e diz: “Ah, que pena!”, solta os braços e deixa cair o pano. Quero, sim, estar viva para viver minha própria morte.

Todos nós sabemos que vamos morrer. A partir de agora, porém, a morte está à minha esquerda, como adivinhava don Juan (quem é dessa geração, certeza que sabe de quem estou falando!) É ela que me dá a mão. Me ajuda a ser humilde,  me obriga a exercitar a compaixão. Me faz rir. Me torna presente. Me ancora em cada entardecer, em cada riso do meu neto, em todas as vezes que a gente se reúne para celebrar a vida, nos pés de vento que sacodem as folhas, nos sabores e nos aromas, nas cores e formas desse mundo…

Não tenho medo da morte.  Decidi que ela é uma boa parceira.

Mas tenho sim medo de me perder de mim ao longo do caminho.  Ou de morrer antes de mim.  Todos os dias rezo para Nossa Senhora (já falei como ela de repente virou uma presença favorita na minha vida nessa fase? Pois é…), então, todos os dias rezo para que ela ilumine esses cientistas para que eles descubram logo um jeito de vivermos colados em nós mesmos até o dia da nossa morte.  Nós, nossas memórias, nossos afetos, nosso corpo, todos morrendo ao mesmo tempo…

Se doer, paciência, só os tolos acham que é possível eliminar o sofrimento da vida. Quero viver todos os meus risos e todas as minha lágrimas.

Enquanto escrevo isso, minha nova parceira sussurra no meu ouvido que esse medo é bobagem, que não tem nada que eu possa fazer com ele, já que não sou uma daquelas tais cientistas brilhantes que vão nos ajudar a costurar nosso patchwork . Portanto, melhor  explorar outras ideias mais inspiradoras. (A morte, amigos, é muito pragmática!)

Não posso dizer que me sinto velha. Não sei o que fazer com jovens gentis que me oferecem seu lugar. Adoro meu cabelo branco. Também não sei se vou querer a tal vaga de idosos. E com certeza e até prova em contrário não vou perder tempo no ‘poupatempo’ tirando uma carteirinha de idosa. Talvez eu deixe esses benefícios para quem precisa mais do que eu.

Decidi outra coisa, não importa a idade que eu faça, a velhice vai ser sempre daqui a 10 anos.

Além de saber qual é o lugar que a gente ocupa na fila dos humanos e que sempre tem quem precise mais do que nós, envelhecer tem outros luxos.

Adoro não precisar de bife com batata frita para deixar feliz meu paladar. Muito menos de junk food. Gosto de  preferir vinho a Coca Cola. Sei descer escadas de salto alto sem olhar para baixo e posso andar de tênis se quiser. Elegância, nessa idade, rima com um tico de exotismo e muito com excentricidade. Sei do tempo, viver agora é urgente. Minha sombra e eu somos velhas e cansadas amigas. Já vivi o bastante para ter domesticado minha timidez e acho bem poucas coisas ‘um mico’, no máximo, são ótimas oportunidades para rir de mim mesma. Sei fazer frases com sujeito, verbo e predicado, mas uso-as  mais para compartilhar ideias do que para fazer sermões.  Aprendi  com a Re e a Tessy a desconfiar dos universais. Meus filhos me ensinaram a ser mãe. E estão me ensinando a deixar de ser. Minha mãe me treinou direitinho a dizer por favor e muito obrigada. E de tanto treinar, aprendi a ser gentil sem fazer força. Vivi o  bastante para acreditar que a civilização é um esforço, mas prefiro arte, poesia e música à liberdade de socar meu vizinho num ataque de raiva. Amei tanto quanto pude, do jeito possível, muitas e surpreendentes formas de amor. Acredito nos Beatles  quando eles dizem que in the end, the love you take is equal to the love you make (or gave?) Adoro os humanos!

E antes de me despedir de vocês e desse post longo, queria só dizer para a Marília que hoje vou celebrar meu próximo nascimento, com frio na barriga, certo, mas com uma antecipação curiosa de criança esperando abrir o portão do parque de diversões…

ET: A menção ao Miró nasceu da frase de Alfredo Melgar, curador e amigo do artista catalão, que fecha a exposição A Magia de Miró, no Centro Cultural da Caixa Econômica, na Praça da Se, em São Paulo. Exposição tocante e inspirada que fica em São Paulo só até maio, depois viaja para Curitiba, Rio de Janeiro, Recife e Salvador

 Não tenho medo da morte, de Gilberto Gil, que também falou sobre isso de estar presente na hora da própria morte

5 comments

  1. Parabéns Adília, pelo aniversário e pelo belo texto!!!Fiquei vaidosa pela citação e queria te dizer que, do ponto de vista da astrologia os 60 anos são mesmo muito especiais. Depois do quinto retorno de Júpiter e do segundo retorno de Saturno, a gente pode, se quiser e tentar, é claro, saber mesmo o que viemos fazer aqui neste planeta! Para os chineses este é o “ano de ouro”. Aproveite porque o céu está arretado!!!!!!

    beijos

    Monica

    1. Ah, Monica, escreva sobre esse ‘ano de ouro’, vá? Tantos ‘sixties’ aí pelo mundo que precisam de uma injeção de coragem! bj carinhoso

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