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A Grande Beleza

Jep Gambardella é uma delícia de personagem! E é esse bon vivant de 65 anos, interpretado por Toni Servillo, que faz a gente sair do filme A Grande Beleza (La grande bellezza) com saudades…

“Eu não queria ser apenas um playboy”, avisa Jep logo no início. “Eu queria ser o rei dos playboys!”

http://www.youtube.com/watch?v=wKvCxmQQ3IA

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Poster do filme ‘A Grande Beleza’, de Paolo Sorrentino (Foto: Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E é com a elegância de um rei que ele passeia por uma Roma tão deslumbrante quanto decadente. Luxúria e excentricidade como que desfilam pelos belos cenários, insensíveis. A música alta e a superficialidade tornam o olhar vago. Todos parecem ligeiramente anestesiados de sexo, drogas, religião, gurus, ideias prontas, o ritmo duro do som balada (engraçado, será que o DJ é o mesmo em todo o planeta?) e….botox!

Jep apresenta-se como jornalista. Escreveu um único livro quando era jovem e desde então dedica-se a construir cuidadosamente a imagem de elegante, indolente e ‘cool’ ‘rei da noite’… Espécie de vampiro que se entedia de insônia à luz do sol e floresce toda noite. Mas um belo dia….

“Eu não posso perder mais nem um minuto fazendo coisas que não quero fazer”, diz Jep, lá pelas tantas, depois de uma notícia que o faz embarcar numa viagem de volta para si mesmo.

Jep, o personagem, é feito de nuances, como qualquer um de nós. Nenhuma mudança é abrupta, gratuita ou espetacular. É, de novo, o olhar que se suaviza, ora de espanto, ora de tristeza…engraçado observar as festas ficando mais sombrias, a música ainda mais dura, os rostos mascarados e o olhar de Jep, compassivo, amaciando tudo e se perdendo em paisagens de absoluta beleza.

“A Beleza pode ferir até a morte”, avalia o ator Toni Servillo, o Jep, numa entrevista para o jornal inglês The Guardian. “Uma ferida incurável. Traumatizar, fazer sua vida mudar completamente de direção. A beleza efêmera de um momento de harmonia com a Natureza, um ritual diário que você faça ou mergulhar no mar. Essas experiências deixam marcas em nós, para sempre”.

De praxe, o filme recebeu inúmeras críticas. Marcelo Janot, do site Críticos, diz que a ‘A Grande Beleza’ “funciona muito bem em dois níveis: como uma crônica da solidão de um homem que não consegue encontrar seu lugar no mundo que o cerca, tema recorrente na obra de Sorrentino, e a observação ácida e crítica desse mundo, que é a Roma contemporânea”. Janot ainda critica Sorrentino comparando-o com Federico Fellini, diretor do filme ‘A Doce Vida’: “Se o diretor teve a pretensão de tentar chegar aos pés de Fellini recorrendo ao onírico e ao mundano colocando em cena uma girafa de circo, flamingos ou a ex-musa Serena Grandi como uma espécie de Saraghina cheiradora, são momentos que não conseguem atingir uma beleza que ultrapasse o artificialismo da mera plasticidade. (…) não há em Sorrentino um pingo da genialidade de Fellini”, diz.

Já para o crítico Thales de Menezes, da Folha de S. Paulo, o filme vale uma segunda ida ao cinema. “É apropriada a comparação com o Antonioni de “A Noite” e, principalmente, o Fellini de “A Doce Vida”. A jornada hedonista de Jep Gambardella, escritor de um único e elogiado livro e repórter cínico de revista esnobe, poderia ser protagonizada por um Marcello Mastroianni (1924-1996). Mas Toni Servillo, ator de 54 anos interpretando alguém de 65, é uma das razões do sucesso do longa. Acompanhá-lo em seu balanço da vida mundana fascina, mas a empatia do público com ele pode ofuscar uma segunda e importante leitura do filme”, escreve o crítico. “É possível isolar os episódios em que Gambardella assiste a performances de artistas “modernos” e os entrevista. O que se vê é uma sucessão de embates entre a ironia inteligente do escritor e o vazio de simulacros de arte”, finaliza.

A Grande Beleza é candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não deixe de assistir. Mas prefira a tela imensa do cinema. As imagens de Roma e a trilha sonora intoxicante merecem.

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