Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A grande dama, por Sylvia Loeb

A grande dama, as portas escancaradas, vestida em veludo e adamascado, pendurada de joias, iluminada pela luz cintilante que emana dos lustres de cristal. A grande dama está sendo dilapidada.

O piano de cauda, testemunha de muitas festas, permanece calado, à espera de um destino que não sabe qual. Sabe apenas que vai sofrer, desmontado, sacudido, remontado sabe lá onde.

Mudos, tristes, os quatro grandes relógios carrilhão, sinos que invadiam a casa. A grande dama está sendo dilapidada.

O faqueiro de prata, a santa negra que ficava na sala de jantar, já foram embora. Para onde?

Sobraram taças de cristal lascadas, um quadro carcomido de cupim; eles adoram a madeira macia, madeira sem veneno, própria para serem devoradas pelas entranhas.

As vergonhas da grande dama. As gavetas. As partes mais íntimas estão sendo invadidas por olhos curiosos, mãos descuidadas que remexem com grosseria objetos que dormiam sossegados. Gavetas. Os lugares mais secretos, os mais vulneráveis à falta de sensibilidade. Pequenos bilhetes, uma foto antiga, outra que não era para ser vista, anotações, cartões de visita. Um vidro de remédio vazio, lápis sem ponta, desenhos não terminados, um lenço de cambraia amarelado.

Uma risada de escárnio e toda a memória de uma vida ferida para sempre.

Estão dilapidando a grande dama.
O vaso de cristal sobre a mesa de vidro, debaixo do lustre antigo acolhe as flores do jardim, vibrando de cor, de vida. E de saudades. Enfeita a sala dilapidada, que ainda assim, permanece bela.

Os livros, onde foram parar? Os de literatura, nos sebos; alguns, no fogo, tão inutilizados estavam pelo tempo, pela umidade, pelo pó, pelo abandono.
Os de arte, o mesmo destino, salvo alguns que foram salvos. Por quem?
A grande dama, dilapidada.

A cristaleira antiga de cristal bizotado, três metros da altura, a mais digna, a mais elegante, a primeira a ser levada embora, por preço miserável. Fogo seria uma alternativa?
Desfigurada a sala de jantar, uma mancha enorme na parede denuncia a ausência.

Um a um, móveis e objetos vão abandonando a grande dama que resiste, apesar da invasão. Uma velha senhora que não tem forças para fechar as portas. Só lhe resta ficar na soleira, sorrindo com dignidade para os que a estão saqueando.

Virão tempos piores quando janelas, vidraças, torneiras, pias, privadas, ralos, grades serão arrancados de sua carne, onde ficarão buracos que não mais cicatrizarão, até que, exaurida, pedirá clemência.
É quando então entrarão grandes máquinas, tratores, escavadeiras, machados, martelos e o que mais for necessário para o golpe de misericórdia.

Uma grande missa será realizada em sua memória, uma grande reza uma semana depois, e um despacho para finalizar e garantir que sua alma foi em paz.

Grande dama inesquecível, que ficará na memória de quem teve a sorte de a conhecer.
A casa do meu pai.

(Imagem: peça do pintor e escultor alemão Anselm Kiefer)
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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

 

 

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