Este artigo é parte do Clube dos Escritores leopoldo - bettina lenci - fifties mais

Leopoldo

Passo diariamente ao lado de uma loja com marquise, cujo portão de ferro está baixado. Em frente a essa porta, um catre feito de madeira de construção segue o desenho de uma cadeira de praia. Uma ”chaise-longue” de ripas e encosto inclinado sob um guarda-sol branco conhecido por “ombrelone”. (Por que num país com quilômetros de praia usamos nomes estrangeiros para designar a mobília de verão?).

Sobre o catre um colchão de espuma e deitado nele um homem. Nos dias chuvosos cobre-se com uma velha manta; nos dias de calor, com um lençol. No estreito degrau abaixo do portão um copo, uma escova de dente e pasta semi-usada. Dependurada num gancho do guarda-sol, uma camisa branca que recebeu uma lavagem de córrego, mas não tirou as manchas mais tenazes. O engenhoso ocupante da “cama”, além de aproveitar o estreito degrau como banheiro, usou-o como prateleira de cozinha: uma marmita e um saco plástico com sanduíche aguardavam a próxima refeição.

Caso essa cena estivesse escondida atrás do desenho de uma janela, não a veríamos porque não teríamos como abri-la; mas, caso o desenho fosse de uma janela aberta, certamente seria indiscrição olhar para dentro, tal o conforto, sem constrangimento, visível e ordeiro que ali reina. Com a janela aberta, vemos um homem nu, ensaboando-se de cima a baixo na bica de um parque ou cano furado na avenida.

morador de rua
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Passo em diferentes horas do dia e lá está o moço, tufos de cabelo negro no peito e barba, estendido, confortavelmente, em sua “chaise”. Ao seu redor, tomando bastante espaço da calçada, sacos cheios, pode-se supor, de trocas de roupa. Às vezes, está com os braços cruzados atrás da cabeça, olhando para nós, transeuntes, de cima para baixo. É possível ler um sorriso embutido em seu rosto. Falta, para completar o cenário, a carroça e o fiel cachorro. Imagino que ele se separe do ruído de carros e movimentos de humanos encoberto por uma solidão que possivelmente lhe traga a noção simples de existir por existir. Paira a minha dúvida: sua respiração invisível teria cheiro de medo? Ou ainda: estaria ele apenas ligado ao mundo por um fio de carretel?

É possível que a vida nos engane, fazendo-nos acreditar que contém algo de importante dentro dela.

Perguntei seu nome. É Leopoldo, nome de príncipe.

 

Bettina Lenci, escritora e empresária
BETTINA LENCI – Nasci em 1945. 45 foi o número título do meu livro lançado em 2006. Nas vozes de 4 mulheres, intimamente ligadas à minha visão de mundo, o livro narra a trajetória de uma imigração. Como filha de imigrantes, judia e alemã, não tenho como fugir da minha formação e cultura, base dos meus pensamentos. Realizei-me tendo como início profissional a história da arte e a fotografia. As moiras, contudo, teceram meu destino para que me especializasse em ser empresária. Porém, sou uma empresária que descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo individualizado. Um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós. 

Os textos do blog www.legadovivo.com nascem depois de 60 anos de peregrinação em busca de marcos significativos à beira da estrada. Os caminhos indicavam trilhas a seguir, mas, como se crianças levadas tivessem virado as setas para o lado contrário, bati em terras movediças. Consegui desvirar a seta ao descobrir-me pronta para que os textos fossem  rejeitados publicamente.

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