Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Os donos da rua:
Leopoldo, por Bettina Lenci

Passo diariamente ao lado de uma loja com marquise, cujo portão de ferro está baixado. Em frente a essa porta, um catre feito de madeira de construção segue o desenho de uma cadeira de praia. Uma ”chaise-longue” de ripas e encosto inclinado sob um guarda-sol branco conhecido por “ombrelone”. (Por que num país com quilômetros de praia usamos nomes estrangeiros para designar a mobília de verão?).

Sobre o catre um colchão de espuma e deitado nele um homem. Nos dias chuvosos cobre-se com uma velha manta; nos dias de calor, com um lençol. No estreito degrau abaixo do portão um copo, uma escova de dente e pasta semi-usada. Dependurada num gancho do guarda-sol, uma camisa branca que recebeu uma lavagem de córrego, mas não tirou as manchas mais tenazes. O engenhoso ocupante da “cama”, além de aproveitar o estreito degrau como banheiro, usou-o como prateleira de cozinha: uma marmita e um saco plástico com sanduíche aguardavam a próxima refeição.

Caso essa cena estivesse escondida atrás do desenho de uma janela, não a veríamos porque não teríamos como abri-la; mas, caso o desenho fosse de uma janela aberta, certamente seria indiscrição olhar para dentro, tal o conforto, sem constrangimento, visível e ordeiro que ali reina. Com a janela aberta, vemos um homem nu, ensaboando-se de cima a baixo na bica de um parque ou cano furado na avenida.

Passo em diferentes horas do dia e lá está o moço, tufos de cabelo negro no peito e barba, estendido, confortavelmente, em sua “chaise”. Ao seu redor, tomando bastante espaço da calçada, sacos cheios, pode-se supor, de trocas de roupa. Às vezes, está com os braços cruzados atrás da cabeça, olhando para nós, transeuntes, de cima para baixo. É possível ler um sorriso embutido em seu rosto. Falta, para completar o cenário, a carroça e o fiel cachorro. Imagino que ele se separe do ruído de carros e movimentos de humanos encoberto por uma solidão que possivelmente lhe traga a noção simples de existir por existir. Paira a minha dúvida: sua respiração invisível teria cheiro de medo? Ou ainda: estaria ele apenas ligado ao mundo por um fio de carretel?

É possível que a vida nos engane, fazendo-nos acreditar que contém algo de importante dentro dela.

Perguntei seu nome. É Leopoldo, nome de príncipe.

 

Bettina Lenci, escritora e empresária
BETTINA LENCI –  Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.

 

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O mendigo, por Adília Belotti

Passei por ele voltando para casa. Um belo homem devia ser, por trás da camada acinzentada que lhe cobria o corpo. Muito negro, alto, rijo, os cabelos desgrenhados, longos. Vestia feito manto um cobertor desses também acinzentados, que um dia foram forros de carpete. Havaiana em um pé, descalço o outro. Mas não fazia tanto frio. Manhã de domingo, nenhuma nuvem no céu nesses primeiros dias de outono. Esperava do lado de fora da padaria pelo pão na chapa e café com leite que o dono manda o funcionário oferecer, ó-aqui, mas agora vai circular, amigão! Continue lendo aqui!

A dona da rua, por Sylvia Loeb

Lábios imensos, carnudos, dobravam-se  para fora da boca feito pétalas maduras de flor vermelha desabrochada. Caminhava com passadas largas, pra lá e pra cá, ao longo de uns 20 metros da rua. Sua rua.  Saionas largas sobrepostas, os cabelos escondidos por turbante colorido, falava animadamente com alguém invisível. A cabeça altiva, o peito pra frente, a conversa animada, ar de triunfo. Continue lendo aqui!

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