Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Lição de anatomia,
por Liliana Wahba

 

 

 

Meninos e meninas, hoje iniciamos nossa lição de anatomia. Diferente do famoso quadro de Rembrandt que viram no museu, que mostrava um homem morto, a nossa será dos vivos, alguns deles se achando mais vivos (espertos) do que outros.

Começaremos com os sistemas cardiovascular, respiratório, digestório, nervoso, urinário, reprodutor, esquelético. O cardiovascular movimenta o sangue, nossa fonte de vida, e o coração é o motor que bombeia esse sangue pelo corpo,  e leva também oxigênio. Os pulmões são órgãos essenciais do respiratório, sem eles morremos em poucos minutos, asfixiados. O cérebro coordena o sistema nervoso, mas veremos em aulas seguintes que há outros centros pelo corpo; com ele dirigimos nossa vontade, os pensamentos, a fala. O digestório basicamente se concentra no estômago que digere tudo que se come, o que sobra é eliminado. Pelo urinário expelem-se toxinas junto a líquidos que não foram usados pelo organismo; a água é vital. O aparelho reprodutor garante que nossa espécie exista e o esquelético nos mantém eretos quando precisamos, com movimentos de articulações para poder agir.

Bem, garotos e garotas, agora passemos a outros modos de operar, digamos assim,  menos evidentes, desses sistemas. Não vão entender e repetir que eu disse que há pessoas sem coração, porque a anatomia é igual para todos, quando na normalidade. Mas há doenças – patologias – que pressionam de dentro para fora, ocasionando instabilidade ao sistema. Há órgãos que se atrofiam, outros que se dilatam, ou torcem, ou se confundem e querem funcionar como outro órgão. Parece difícil de entender, não é?

Vamos aos exemplos, e exercitem em casa com seus familiares, mas deixem claro a eles que se trata de ciência e de aprendizado. Um belo caso de confusão se dá quando os órgãos reprodutores querem coordenar o planejamento como se fossem o cérebro, chegam a se colocar no lugar dele e, daí, pensem vocês, as escolhas são um desastre. Outra confusão é do pulmão quando gruda na coluna e fica rígido quase sem respirar, se obriga a comandar a posição de firmeza, coitadinho, ele que é tão fluído e aéreo; consequência: adoece de mal de peito.

Pior do que a confusão é o esquecimento, por exemplo, o esquelético esquece que evoluiu na espécie e se comporta como um molusco, gelatina levada ao deus dará, ou o cérebro esquece sua maravilhosa diferenciação e somente usa as bases da sobrevivência sem ativar pensamentos próprios. Muito triste, concordam?

O urinário é interessante em suas funções paralelas, solta xixi quando a bexiga está cheia, mas também quando estamos com muito medo; deve ser porque o medo gela as pernas e o xixizinho escorrendo aquece.

Perguntam agora, como um órgão se dilata? Caso típico é o estômago, não somente quando come demais, isso vocês conhecem. O estômago se dilata quando engole mais do que pode, do que deveria, quer engolir tudo pela boca para preencher-se de coisas – e digo coisas e não alimento – burro como um avestruz. Com frequência está alocado em alguém de poder, que engole os demais, que se infla a ponto de estufar tanto, mas tanto, que nada mais o satisfaz a não ser querer se preencher, somente para se sentir cheio.

E o coração torcido? Acredito que alguns de vocês já o teve, um encantamento interrompido, uma tristeza sem lágrimas ou conforto. Pode também se alargar e abraçar o mundo, sente-se bem. A mente – produto do sistema nervoso – ora encolhe ora expande, depende não só da pessoa, mas de circunstâncias.

Finalmente por hoje, aprendam bem, o sábio é aquele de pequeno estômago e grande coração e mente. Até a próxima!

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

 

2 comments

  1. Pobres órgãos que saem de sua função, patéticos,. O pulmão querendo sustentar a coluna, os ossos que se transformam em gelatina, será que almejam o quê? Entrar na seara dos outros dá nisso, tudo ao avesso. É a base da fofoca, uma confusão só, uma invasão sem tamanho. Gostei muito da sua aula de anatomia!

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