Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Marilena, por Sylvia Loeb

Cada vez que vejo Marilena preciso comer um biscoito. Não é de qualquer tipo, tem que ser amanteigado, com pequenos pontos crocantes que impedem mordida violenta, exigindo degustação cuidadosa para não engasgar. Dentro da boca, com a ajuda da saliva e da língua, forma-se então uma massa cremosa, homogênea, levemente adocicada, no ponto certo, o suficiente para dar prazer e evitar o enjoo.

Compro um pacote de bom tamanho. De modo geral sei dosar a quantidade; para isso, preciso ficar perto de Marilena, ouvir sua voz e sentir o aroma de sua pele, que imagino adocicada. Já reparei que se fico muito tempo sem vê-la, exagero na dose quando a encontro.

Hoje ela chegou toda odores e sorriso, sua voz aveludada me fez ingerir, gulosamente, dois ou três biscoitos de uma vez. Engasguei. Marilena sorriu.

Tentei me controlar enquanto pensava em outra coisa, evocava problemas que me tirassem a atenção dela, desviassem meu desejo insaciável para outro assunto.

Foi pior. Perdi o controle, comi o pacote inteiro quase sem respirar, engasguei mais de uma vez. Ela me olhava espantada enquanto eu sentia uma onda ácida e amanteigada subindo e subindo. Continuava me encarando com o mesmo espanto e o suor me esquentando e esfriando e ela olhando e não parava de olhar, o olho esbugalhado o dela e o meu que ardia, uma quentura na garganta, a boca aberta a dela e a minha de onde saiu a onda ácida e amanteigada que não pude segurar.
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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

 

 

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