Este artigo é parte do Clube dos Escritores A menina, o pediatra e o rabino - SERGIO ZLOTNIC e Vivian Altman – fifties mais

A menina, o pediatra e o rabino

i – Era uma vez uma Menina muito pequena. Poucos meses de vida. Estava por isso bastante próxima ao não ser, de onde viera e de onde ainda não se distanciara o suficiente.

Numa noite Desgraçada, adoeceu tremendamente. Não sei se fora acometida de uma meningite fatal, ou o quê.

O Martírio começa por volta da meia-noite e se estende madrugada afora. Seu pai verifica que Ela não está bem. Telefona ao Pediatra que, entorpecido de sono, balbucia qualquer coisa. Meia aspirina; trinta gotas de novalgina; leiba; escalda-pés; ventosas…

O estado da Criança se agrava. E o pai repete os telefonemas ao Pediatra, que repete prescrições inócuas e, inocente, não suspeita da gravidade da situação.

Finalmente, ao antever o Pior, o pai amoroso embrulha aquela coisa pequena num cobertorzinho e bate à porta da casa do Pediatra. Toc toc toc.

Ao abri-la e examinar o embrulho, o Médico desperta e constata que era tarde demais. Com olhar clínico infalível, soube que reverter o rumo dos acontecimentos era possibilidade fora de cogitação: haviam esperado demais.

Como o próprio pai da Menina era também ele um Médico, o Pediatra se iludira: desativara em seu cérebro o alerta vermelho, acreditando que as ameaças estariam afastadas, razão pela qual se enfiara no sono profundo, pecado.

Ao pegar nas mãos a Criança-praticamente-morta, se dá conta do engano: um pai Médico é sempre somente um pai.

A Menininha não tinha mais pulso, nem pressão, nem respiração, nem coração. Nem fígado. Nem rins.
Mesmo assim, desafia o impossível e decide levar a Infanta ao hospital – e, para isso, depressa, vai se vestir. Esposa abotoa camisa de marido: tanto tremia, fazê-lo não pôde.

Ele a leva à UTI e começa uma corrida contra o tempo. Era considerado o maior Pediatra do Condado. Teria que colocar a Ciência numa trágica batalha, com chances de êxito próximas a zero. Só se fosse sobre-humano…

 

ii – A família da Menina fez então Aquilo. Aquilo que faz toda gente, quando não tem mais jeito. A família buscou um Rabino.

Judeus comunistas recorrem a rabinos quando não sobra mais nada. Religião é ópio, até que o ópio aviste uma Catástrofe no horizonte. Normal.

Encontraram, na madrugada, um Rabino velho e sábio e bom, coisa rara. Ele compreendeu que era tarde demais. Seu olhar desanimado, a cabeça balançava negativamente.

A mãe da menina apela: que se convoque o proibido! Ao ouvir a súplica, o Rabino diz, resoluto, no dialeto alemão: “duss iss kabule”. E completa, com sotaque: “Com isto, não mexo!”. Nó!

Todo Sábio tem sotaque. Quanto mais Sábio, mais sotaque. Até o ponto em que não se entende mais nada do que Ele diz. O que garante restos de enigma a serem decifrados pelas gerações seguintes.

– Os desígnios são insondáveis, arrematou, definitivo.

Entretanto, ali, na esquina, em que a Religião transgride o limite, poderia haver alguma Esperança. Mesmo que minúscula. Ele hesitou. Difícil ser imune a agonia de mãe. Especialmente nas aflições dos becos imundos da vida.

Tocado pelos lamentos da família pobre, o Rabino muda de ideia: busca livros enormes e velhos. Abre um deles. Olha com extrema atenção uma página empoeirada. E finalmente faz Aquilo: desce à Kabbalah! Não a de Madonna, e sim a Legítima.

Sai e, em seguida, muito rápido, volta com uma galinha preta e viva. Aponta a galinha e diz: “kapures”. A família arrepia. E acredita (isso é importante, pois a Fé move montanhas).

Não se tenta alterar destinos impunemente, então o Rabino diz “deus me perdoe”. Logo, Ele, em sacro território, num ritual, nas bordas do profano, ganha Coragem e evoca o Além. Tudo úmido e escuro.

Em seguida, reza. E se balança e se chacoalha. E soluça e tem olhos vermelhos e injetados de sangue. E levita. E tosse.

A família, hipnotizada, não emite som. As palavras, nas rezas, ganham espessuras traiçoeiras. Melhor calar.
Iluminado naquele instante, o Rabino Cresce. Muito. E, de repente, num Gesto Imenso, quase Precipitado, com a mão direita, no ar, arranca o Nome da Alma da Criança e, com a esquerda, enfia no lugar outra Palavra que, dali em diante, iria acompanhá-la.

Depois, sossega. E se detém. “Está feito”, Ele diz. Mostrando as mãos com dedos enrugados e unhas longas e sujas, as mesmas mãos que procederam a inúmeras circuncisões. Algumas vísceras penduradas nas pontas dos dedos. “Agora, é esperar. Rezem!”.

A família laica rezou contradições com Fervor.

 

iii – Enquanto isso, na UTI, a Ciência afia exatidões. E o Médico, incansável, invade o Corpo em colapso. Injeta drogas, inocula bactérias, aplica choques, enfia aparelhos…

Longa madrugada, noite dos desesperados.

Uma Figura Escura, de Sombra, se insinua. E vai se aproximando da caminha da Criança. Sua presença é grossa e palpável.

Ela rodeia a criança, olha, procura… e não compreende. Com um papelzinho na mão, contendo uma Palavra, as coisas não se encaixam. Como se ali estivesse escrito “Esther”, mas no leito de morte se vê somente “Ester”. E, pela diferença de uma Letra, Ela se desvia sempre e continua zanzando pela UTI, perdida. Cheiros acres, Ela solta. E olha o papel outra vez, com ar bovino. E ronda e ronda. E não entende…

Assim se segue a longuíssima noite de exaustíssima Graça. A família reza, a Ciência opera, o Rabino imóvel. A galinha preta.

E, com esse Médico e com esse Pediatra, pela manhã, a Sombra Escura tinha ido embora e soprava uma Brisa Fresca.

“Quarenta e oito horas”, disse o Médico cauteloso. Nenhuma garantia.

O Rabino nada disse, apenas recolheu a galinha agora morta. “Kapures”. Debaixo dela, um Ovo.

Foi só no terceiro dia que a Menina despertou. Tinha enfim, de novo, coração, pulmão, rim, fígado, pulso e pressão. Era o Milagre, fruto da Graça.

“Se sequelas houver, lamento. Muito tempo cérebro sem oxigênio”. Disse-se.

Sim. A Menina ficou bem. E ninguém mais, naquela família, pisou numa Sinagoga. Nem nunca mais estiveram com algum Rabino. E assim termina A Estória.

 

iv – Seis décadas se passam! Era verão e ventava um bafo. Caminhei em direção ao Centro da Aldeia. Ia dar aula na Escola de Teatro. Vestia camiseta vermelha. Vi uma Senhora sessentona, na calçada. Surpreendentemente jovem. Livre, solta, feliz. Saia comprida. Peruca. Muito risonha, um riso sincero. Cara de Menina. Moleca! Falava com um taxista. Pechinchava!

Era Ela! Minha prima, a mais nova, reconheci. Não a via há um século.

Por prudência, não a toquei. Fiz bem.

Lembrei da Estória que ouvira quando pequeno. Os ecos da fábula que me impressionou. Da Menina da Graça. Quase morta. A do Nome trocado. Nascida duas vezes. A do Rabino de unhas longas. A da galinha preta. “Kapures”!

Sobre isso, nada disse. Será que Ela sabia?

As sequelas! Sorriso sincero é sequela? Houve, sim, não sequela, mas um efeito colateral, devido ao rito-quase-pagão do passado. Mas esse era inevitável e fácil de prever: a Menina casara com um Judeu ortodoxo. Por isso a saia e a peruca, por isso não a toquei.

Longe, certamente, da figura de genro sonhada por uma sogra marxista, refleti.

Porém, Ela transgredia. Entramos num empório. Comeu de tudo, mesmo o que não era “kasher”. Só não se podia contar ao marido e isso prometi. Sem esforço.

Rimos, não sei bem de que. De algo que tinha a ver com gente que não ri.

Depois, a Senhora-abençoada-por-Ciência-e-Credo foi-se, lépida, saia esvoaçante. Ágil. Eu a segui com o olhar, até sumir no horizonte. Puff! Mesmo seu andar era risonho, como personagem da Carochinha.

Então, fui pra Escola. O tema da aula: “significante”.

Não soube explicar, conceito difícil. Contei toda Estória da Menina. E conclui assim: “Para a Morte, o Nome é um Puro Significante. Ela é Míope”.

Cá pra nós, Ela é uma Tonta também.

Imagem: arte de Vivian Altman

sergio zlotnicSERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico.    [email protected]

Vivian AltmanVIVIAN ALTMAN é diplomada em cinema pela ECA, USP e desde 1985 se dedica ao cinema de animação. Trabalhou no Brasil, França (aonde reside desde 1988), Moçambique e Espanha. Misturando animação e documentário ganhou um prêmio como co-realizadora de “Espelho Meu” (Documenta Madrid, 2011) e menção com “Mãe dos netos” (Terra di tutti film, Bologna, 2010). Além de filmes de animação, Vivian esculpe, desenha, pinta e borda. Para conhecer um pouco mais do seu trabalho: http://vivianaltman.free.fr/

12 comments

  1. SERGIO QUERIDÍSSIMO, LI SEU POST NOVAMENTE, UM SORRISO ME ACOMPANHOU O TEMPO TODO, SENTI NO ROSTO, SEM SABER, DEVAGARINHO.
    SUA HISTÓRIA É UM AFETO, UM PRAZER, UMA POESIA, UMA GRAÇA, UMA SABEDORIA, UM RISO, UMA INTELIGÊNCIA, UMA ESPERANÇA.
    A ILUSTRAÇÃO ACOMPANHA O TEXTO, O LINK DA ILUSTRADORA É GENIAL.

  2. Amigo: teu escrito me levou para multiplos lugares , o que só acontece na boa literatura —-o mágico e o terreno, o desespero amoroso dando um drible no quase-inevitavel, uma vida que viceja e que retoma o que foi renegado no antes, uma letrinha que muda um destino, e o humor . O humor, este grande driblador na vida (refiro-me particularmente ao sotaque que piora, deixando mistérios a serem decifrados— que demais!)
    Abraços, aguardando o próximo…
    Janete

  3. Meninas [Loeb e Frochtengarten] – que lindos feedbacks. deixo bjos – e uma observação, que já disse noutro lugar:
    Ontem, numa dessas várias confraternizações de fim de ano, o assunto era eutanásia. Há dois amigos queridos que queremos muito matar. Um tem 89 anos; outro, somente 50. Entretanto, ambos estão desenganados, sem vida e sem perspectiva. Vegetais. A conversa enveredou para o avesso do conto do rabino. Teria que haver outro conto, em que outro rabino pega uma galinha preta e morta e vai à UTI. Faz a sua macumba. Ao final do conto, a galinha estaria preta e viva. e o doente, falecido enfim…

  4. Meu amigo Sergio, adorei os escrito. Me diverti muito com a estoria. Pensei que a menina não sobreviveria depois dos detalhes sórdidos do estado de saude que se encontrava lastimavelmente degradado e que fora quase milagrosamente salvos com a ajuda de todos, incluindo um rabino macumbeiro……kkkkk

    Estes escritos tem a sua cara!

    Parabens!!!!
    Milton Orel

  5. Parabens Sergio !linda viagem e retrato fiel de tantos capitulos !todas as idades , todos os sentidos e a saudade de tempos antigos !filme que assisti pequena ! Ironias e verdades que são as memorias de quem viveu algo parecido !brilhante criação e escrita !quero mais tb !

  6. Sergio, dois anos desde que v. escreveu este conto.
    Ele será imortal.
    Entendo que v. juntou um hospital cheio de recursos e o stadel( nao sei como se escreve em jidish),pobre de algum lugar no interior da Polonia. Nada de engraçado. Para mim cai como sendo o humano e sua magia; o obscuro e secreto impenetrável dos judeus que lidam com dois mundos com igual maestria e fé!
    Consegui imaginar o todo e tomo como verdade! . tao bonito! Obrigada.
    ( hoje tive um dia particularmente ruim e pensei em abrir e ler como v. enxerga o mundo!)
    V. é um escritor de estante de livro!

  7. Bettina!

    Que linda msg! O melhor e o mais comovente: “hoje tive um dia particularmente ruim e pensei em abrir e ler como v. enxerga o mundo!”. Fantástico – que a palavra possa dar alento [às dores da alma]!

    Adorei a sua compreensão, sobre os dois mundos judaicos – o da medicina de ponta [do século XXI] e o do folclore das cidadelas da Europa do leste [do final do século XIX]!

    Nesse texto aqui, Isaac Bashevis Singer foi inspiração!

    Um beijo pra vc .

    🙂

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