Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meu amante imaginário,
por Adília Belotti

Tenho um amante imaginário, Saul. Não faço ideia da razão do nome bíblico, mas Saul, de fato, bem poderia ser um homem do deserto, com sua pele morena, nariz grande, um tantinho adunco, barba cerrada, já bem grisalha, sempre por fazer, olhos escuros. Um desses homens que lá no fundo são quase azuis. Quando está sério, parece sempre zangado. Mas me apaixono toda vez que ele ri. Seu riso impõe-se. E o timbre da sua voz. Tive certeza de que me apaixonaria quando o imaginei falando. Seria um barítono, se cantasse (e ele não canta, ainda bem, é desafinado, embora tenha ritmo, mas só porque eu adoro dançar!). Com a idade, ficou quase calvo. Gosto do formato da sua cabeça. Não é magro, nem gordo. Mas tem um corpo usado. Seco. Saul é velho. Dizem que vou cuidar dele na velhice, mas somos velhos agora. Os dois. Saul vai cuidar de mim. Se não, também não importa. A velhice é feita de esquecimentos… 

Saul é um amante perfeito: nem tão doce, mas curioso de mim. A voz, na cama, é rouca, e eu apenas ouço, sem entender as palavras. Saul é um grande companheiro e me ‘encontrou’ no meio de dois bilhões de mulheres, por isso me ama profundíssimamente. Ontem conversei bastante com ele para que me dissesse o que é tão perfeito na nossa relação. Ele só ri, como se soubesse… 

Está sempre onde eu quero. Mas às vezes eu o quero longe. Onde eu não saiba. Queria poder imaginá-lo de volta para o deserto de onde veio e onde nunca estive. Queria ele estrangeiro de mim. É a única coisa que Saul não pode me dar. E isso me entristece às vezes. Não quero que ele saiba tudo de mim.

Saul também sofre, tem um filho muito doente, mas é um homem muito pragmático. E ele me diz: você é a mulher da minha vida e eu nunca vou te fazer mal e quando você estiver morrendo vou estar lá e te dar um beijo antes de você ir embora. Eu acredito. Porque quero. Ele e eu temos filhos. Já dissemos mentiras para fazê-los dormirem, ou para ajudá-los a acreditar que o mundo tinha significado e propósito. Mentir é verbo que se dissolve no viver. Nessas horas em que que mentimos um para o outro, é bom estar juntos, muito juntos, tão juntos que, como no poema de Pablo Neruda, você não sabe onde terminam seus contornos e começam os do outro, e por algumas estrofes, tudo faz total sentido…

Nossa relação, no entanto, vem me preocupando ultimamente. Eu queria fechar os olhos e não precisar sempre senti-lo tão em mim…talvez eu tenha que matar Saul.

7 comments

  1. Não mate Saul!
    Ele é para ser amado completamente, embora esteja perto demais. Entendo. Precisamos de um tempinho, mesmo nas grandes paixões.
    Você me soprou uma aragem nova na imaginação, que estava muito parada, quase um deserto.
    O poder da escrita é mágico: apaixonei-me por Saul. Não cometa um assassinato, tenho certeza de que vai se arrepender.
    A menos que…

  2. Também digo, não o mate. E que beleza de texto, ao escrever “Mentir é verbo que se dissolve no viver”, abriu para tantos e tantos verbos que se dissolvem …

    1. Na primeira leitura, criei asas e levitei, na segunda voltei à Terra e partilhei Saul com a poeta, agora arquivo essa figura na minha pequena coleção de não-esquecimentos… poucos merecem estar lá…

      Linda, linda mulher, você!

      1. Esther, é uma enorme honra fazer parte da sua coleção de não-esquecimentos! Vou lembrar disso, quando, como diz a Sylvia Loeb, me sentir meio seca de palavras….

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