Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meu nariz,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Meto o nariz em tudo. Dizem que sou metida, mas de fato não sou, não me interesso pelos outros, nem pelo que estão fazendo ou pensando ou falando.

Gosto mesmo é de cheirar. Meto o nariz em tudo: ao cumprimentar alguém com um abraço aspiro a emanação que vem do outro. Fecho os olhos e aspiro. Muitos me acham carinhosa, não é nada disso. Outros me acham sensual demais.  Não é nada disso. Outros ainda me acham carente. Também não é nada disso.

Conheço as pessoas pelo cheiro. Em geral, cada uma tem um odor muito próprio, é a aura que a envolve, mais intensa, mais rarefeita, mais enjoativa, mais excitante, uma sinfonia de fragrâncias.

Encontrar uma pessoa sem cheiro, me assombra.  Ela não tem alma.

Saber que o interior do meu nariz é um mundo habitado por pelos, muco pegajoso, partículas de poeira, microrganismos, me apavora. Que estes pelos, chamados cílios, têm vida própria, que  se mexem varrendo toda esta poluição para fora do nariz, ou para a garganta, me aterroriza.

Morro de medo que os tais cílios fiquem grudados, ou que caiam, ou o quê mais, nem sei. Eu seria afogada por muco e poluição,  perderia o rumo, ficaria cega, ficaria surda, não conseguiria amar, nem me alimentar, nem brincar.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

                                       

 

2 comments

  1. Olá, não atinei a preocupação de perder os limpadores de poluição e sua consequência. E o nariz está ligado a faro, intuição, sensação primitiva e essencial que esquecemos, mas que foi preponderante em nossa evolução. Viva o nariz!

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