Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meu rabo,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Quando eu caminhava em quatro patas tinha uma longa cauda que me dava estabilidade. Jamais levei um tombo.
Um dia resolvi andar de pé, em duas patas. Pra ser diferente dos outros.

Com o olhar mais abrangente, o mundo se expandiu habitado por outros objetos e outros seres, muito além dos rabos dos meus semelhantes. Passei a dispor de recursos intelectuais e cognitivos até então desconhecidos. Comecei a apreciar a natureza, a sentir aromas que até então estavam restritos à parte de baixo de meus semelhantes.

Adquiri um olhar de perspectiva: avaliava um estranho com outros recursos, além do faro. Não precisava cheirar todos os recantos do corpo dele para me certificar se era amigo ou inimigo. Poupei-me de muito mal cheiro.

Mas perdi o rabo…
No começo foi se atrofiando, longo e sedoso que era. Os pelos brilhantes, a carne volumosa definharam até sumir.

Levei um susto!
Perdi o equilíbrio, caía, caía muito.
Perdi a habilidade de pular de galho em galho, perdi a rapidez, tudo ficou mais lento.
A avaliação do inimigo tornou-se precária, lenta: o que era instintivo, bastando meter o focinho, agora tinha que passar pelo pensamento, pela inteligência, pela sensibilidade.
Quase me mataram, inúmeras vezes.

Hoje vivo uma ressaca perene, ressaca da evolução: dor nos ombros, dor nos joelhos, artrite no quadril, articulações que estalam.

Sem rabo, com o cóccix à mostra, me pergunto se valeu a pena.
Vira e mexe ouço, vá tomar no cu!
Será que a visão dele, tão nu, tão frágil, é um convite à agressão?
Ou ao amor?

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

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