Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meus canais,
por Sylvia Loeb

Tudo começou com meu túnel do carpo.
É localizado no punho, formado por ossos através dos quais passam o nervo mediano e os tendões flexores da mão. A minha flexiona pouco e está formigando.

Meu canal vertebral é o tubo por onde passam os nervos que conectam as informações do cérebro com o resto do meu corpo. Se fosse mais amplo, meus nervos se movimentariam alegremente e me permitiriam girar a cabeça e dar um beijinho no meu próprio ombro.

Meu canal lacrimal é o tubo que conduz a lágrima das glândulas lacrimais até a superfície do olho. O meu deve ter uma válvula solta, pois minhas lágrimas transbordam ao ver anúncio de pasta de dentes, flor esmagada, vaso quebrado, bebês.

A porção média e a inferior do meu canal lombar contém as raízes nervosas da cauda eqüina. A minha está ótima, embora comprimida aqui e ali. Difícil andar na corda bamba, o que ainda sou obrigada a fazer, de vez em quando.

Meu ducto nasal é por onde o ar penetra pelas narinas, antes de passar para os pulmões. De modo geral desentupido, o que me permite aspirar a poluição que me rodeia, a fumaça preta dos caminhões, a que vem da minha vizinha que queima lixo, o aroma de magnólias que emana à noite do meu jardim.

Meu canal auditivo estabelece a comunicação entre minha orelha e o mundo externo. Ouço bem, não posso me queixar, embora compreenda cada vez menos os ruídos que vêm de fora.

Meu canal vaginal se estende do colo do útero à vulva.
Nada a declarar.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!


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