Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meus ossos,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Temos linhagem diferente, mas a mesma origem, basta olhar com atenção para notar que pertencemos à mesma família.

A minha formação é menos rica que a de minhas irmãs: reserva de minerais, principalmente cálcio e fósforo, mas também partículas de potássio, magnésio, citrato e sódio.

A delas, em compensação, é rica em minério de vários tipos e o que predomina é o cobre e o ferro, além do manganês, do zinco, chumbo, prata, o que deixa veios de sedimentação bem definidas nas cores vermelho, amarelo, marrom, verde….

Eu sofro a erosão do tempo, das cargas que sustentei na vida, das secas e inundações, terremotos e tempestades, do sol desalmado ou do inverno funesto e, por conta disso,  não posso afirmar que tenha embelezado com o passar dos anos.

Elas por sua vez, expostas ao vento, à chuva, a enchentes, a rios que não param de cavar seus leitos deixando sulcos profundos nas suas carnes ou sofrendo com o impacto de movimentos subterrâneos, tornam-se cada vez mais belas, mais imponentes.

Tenho certeza de que os deuses habitam seus cumes altíssimos e de lá me olham com compaixão.

Só me resta colocar as mãos em prece e agradecer o presente que recebi: a capacidade de apreciar a grandeza de minhas irmãs.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

5 comments

  1. Que maneira sensível de falar da erosão que o tempo nos traz.
    Acho que os Deuses não olham com compaixão mas com orgulho do que montou na mente de sua obra.
    Ótima série, parabéns.

    1. Tem razão, os deuses devem estar orgulhosos do que construíram na mente dos humanos. Gostei da observação, é mais justo com os deuses e ao mesmo tempo um reconhecimento do que nos presentearam.

  2. Notável aproximação do vivo [do humano] aos elementos primeiros: minerais e substâncias de que somos compostos. Formidável.

    Acho que a gente aprendeu a separar esses grupos tão heterogêneos: animados x inanimados. O conto aqui revela um canal entre os dois.

    Uma vez vi um psicanalista fazer isso [Pierre Fédida?], até chegar à memória [uma memória mineral, como a da pedra – de onde viemos, Who knows!].

    E o título do texto, “meus ossos”! Bem escolhido [a imagem também].

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